segunda-feira, 4 de maio de 2020

Desaparecimento da defunda Eloá - Parte II


Constrangedor final deste folhetim onde uma defunta desaparece sem deixar vestígios deixando o genro, seu desafeto, numa embaraçosa situação.

         Como foi visto no capítulo primeiro, Dona Eloá, sogra de Pedro Caveirinha, bateu com as dez lá na rodoviária da capital paulista. Caveirinha e seu causídico, doutor Pitombeira, tomaram rumo do necrotério que fica ali nas redondezas do Hospital das Clínicas em terras piratiningas, para resolver o imbróglio.
         A bordo do possante maverique vê oito, modelo 77, de propriedade de Caveirinha, entraram na Rodovia Presidente Dutra não dava ainda três da tarde.
         _ Já pensou no jeito pra tirar a velha de lá?
         _ Relaxa Caveirinha, mas vamos ter que molhar a mão de uns e outros. Sabe como são essas coisas. Trouxe o arame?
         _O quê?
         _ O arame! A grana, o capim, o caraminguá, o cascalho, o cobre, o metal, o numerário, o tutu, a verba, o pecúlio, o di-nhei-ro! Entendeu, Caveirinha?
         _Entendi, mas por mim deixava a cascavel por lá. Que enterrassem a peçonhenta como indigente. Nem a filha vai chorar essa defunta.
         _ Não fala assim da sua sogra, Caveirinha. Afinal, é ou era, mãe de sua esposa. Deixa disso, meu amigo.
         _ Pitombeira, meu camarada. Vou dizer uma coisa pra você. E que fique entre nós. Não matei essa velha porque não tive coragem. Do jeito que sou azarado, alguém iria descobrir, por melhor que eu planejasse o serviço. Mas essa surucucu me aporrinhou a vida. Maldita a hora que me apaixonei por Neusinha. Depois que resolvermos essa parada, quero tomar uma com você. É para comemorar com uma bem geladinha.
         _ Não sabia que Dona Eloá era desse jeito. Você devia dar motivos, não dava?
         _ Eu? Do trabalho pra casa, da casa pro trabalho. Só sábado de manhã que jogo minha sinuquinha e tomo minha cerveja. O problema é que sou um duro, ganho mal. Até esse maverique quem pagava as prestações era a velha. Pode ver a documentação. Pelo menos esse presente, ela deixou. Morreu, as prestações morrem juntas. Não é assim?
         Doutor Pitombeira achou que era assim e conversa vai, conversa vem, chegaram ao IML. Final de expediente. Tinha alguém ali no guichê das informações que já mandou os dois procurarem o Doutor Fulano de Tal que era o médico legista.
         _ Meus amigos, sexta-feira, fim de expediente. Vão ter que esperar o médico que vem me substituir para dar a certidão. Sem ela nada feito. O corpo fica na geladeira e aí só na segunda-feira.
 Pitombeira chamou o doutor para um particular e nem dez depois o documento estava na mão. E foi assim, Pitombeira molhando a mão de um, a carteira de outro o bolso de outrem.  E não é que estava para dar 20 horas e Dona Eloá, enrolada num lençol com a marca do Hospital das Clínicas, já descansava no porta-malas do maverique? Antes que saíssem, um sargento gordo que coordenou o resgate advertiu:
_ Se pegarem vocês na estrada e citarem o meu nome, eu mato os dois. Tá entendido? Digam que deram um jeito de roubar o corpo e pronto - eles confirmaram que “tava” entendido.
Na estrada Caveirinha com riso de orelha a orelha.
_ Ficou caro, mas valeu a pena. Neusinha deve ter ajeitado tudo, amanhã enterro a jararacuçu. Nem acredito  - estavam quase chegando em Jacareí – vamos comer alguma coisa ali no Frango Assado que faço questão de pagar a cerveja. Hoje é festa.
Pararam, comeram filé na chapa e tomaram umas três garrafas. Quando saíram, cadê o maverique? Tinham roubado e com a sogra dentro. Pitombeiras foi logo alertando:
_Vamos até a próxima delegacia e dar parte. Temos que dizer a verdade e seja o que Deus quiser.
E Deus quis do seguinte jeito:
         Prestaram queixa, explicaram que a defunta fora com o carro, etc, etc, etc...Receberam BO e ainda ouviram  reclamação do delegado.
_ Era só o que me faltava. Roubo de carro acontece sempre. Roubo de defunta é a primeira ocorrência que faço na vida.  Mas aguardem aqui – os dois aguardaram umas duas horas pensando num jeito de contar para Neusinha.
Findas essas duas horas, vem a novidade.
_Pegaram uns caras que foram assaltar uma padaria. Estavam com o seu maverique, mas não tinha defunta nenhuma no porta-malas.
Já faz um tempinho que Neusinha anda tomando umas e outras. Quando bebe um goró a mais, pega no pé de Caveirinha.
_Cadê minha mãe, filho duma égua?

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