Constrangedor
final deste folhetim onde uma defunta desaparece sem deixar vestígios deixando
o genro, seu desafeto, numa embaraçosa situação.
Como foi visto no capítulo primeiro,
Dona Eloá, sogra de Pedro Caveirinha, bateu com as dez lá na rodoviária da
capital paulista. Caveirinha e seu causídico, doutor Pitombeira, tomaram rumo
do necrotério que fica ali nas redondezas do Hospital das Clínicas em terras
piratiningas, para resolver o imbróglio.
A bordo do possante maverique vê oito,
modelo 77, de propriedade de Caveirinha, entraram na Rodovia Presidente Dutra
não dava ainda três da tarde.
_ Já pensou no jeito pra tirar a velha
de lá?
_ Relaxa Caveirinha, mas vamos ter que
molhar a mão de uns e outros. Sabe como são essas coisas. Trouxe o arame?
_O quê?
_ O arame! A grana, o capim, o
caraminguá, o cascalho, o cobre, o metal, o numerário, o tutu, a verba, o
pecúlio, o di-nhei-ro! Entendeu, Caveirinha?
_Entendi, mas por mim deixava a
cascavel por lá. Que enterrassem a peçonhenta como indigente. Nem a filha vai
chorar essa defunta.
_ Não fala assim da sua sogra,
Caveirinha. Afinal, é ou era, mãe de sua esposa. Deixa disso, meu amigo.
_ Pitombeira, meu camarada. Vou dizer
uma coisa pra você. E que fique entre nós. Não matei essa velha porque não tive
coragem. Do jeito que sou azarado, alguém iria descobrir, por melhor que eu
planejasse o serviço. Mas essa surucucu me aporrinhou a vida. Maldita a hora
que me apaixonei por Neusinha. Depois que resolvermos essa parada, quero tomar
uma com você. É para comemorar com uma bem geladinha.
_ Não sabia que Dona Eloá era desse
jeito. Você devia dar motivos, não dava?
_ Eu? Do trabalho pra casa, da casa pro
trabalho. Só sábado de manhã que jogo minha sinuquinha e tomo minha cerveja. O
problema é que sou um duro, ganho mal. Até esse maverique quem pagava as
prestações era a velha. Pode ver a documentação. Pelo menos esse presente, ela
deixou. Morreu, as prestações morrem juntas. Não é assim?
Doutor Pitombeira achou que era assim e
conversa vai, conversa vem, chegaram ao IML. Final de expediente. Tinha alguém
ali no guichê das informações que já mandou os dois procurarem o Doutor Fulano
de Tal que era o médico legista.
_ Meus amigos, sexta-feira, fim de
expediente. Vão ter que esperar o médico que vem me substituir para dar a
certidão. Sem ela nada feito. O corpo fica na geladeira e aí só na segunda-feira.
Pitombeira chamou o doutor para um particular
e nem dez depois o documento estava na mão. E foi assim, Pitombeira molhando a
mão de um, a carteira de outro o bolso de outrem. E não é que estava para dar 20 horas e Dona
Eloá, enrolada num lençol com a marca do Hospital das Clínicas, já descansava
no porta-malas do maverique? Antes que saíssem, um sargento gordo que coordenou
o resgate advertiu:
_
Se pegarem vocês na estrada e citarem o meu nome, eu mato os dois. Tá
entendido? Digam que deram um jeito de roubar o corpo e pronto - eles
confirmaram que “tava” entendido.
Na
estrada Caveirinha com riso de orelha a orelha.
_
Ficou caro, mas valeu a pena. Neusinha deve ter ajeitado tudo, amanhã enterro a
jararacuçu. Nem acredito - estavam quase
chegando em Jacareí – vamos comer alguma coisa ali no Frango Assado que faço
questão de pagar a cerveja. Hoje é festa.
Pararam,
comeram filé na chapa e tomaram umas três garrafas. Quando saíram, cadê o
maverique? Tinham roubado e com a sogra dentro. Pitombeiras foi logo alertando:
_Vamos
até a próxima delegacia e dar parte. Temos que dizer a verdade e seja o que
Deus quiser.
E
Deus quis do seguinte jeito:
Prestaram queixa, explicaram que a
defunta fora com o carro, etc, etc, etc...Receberam BO e ainda ouviram reclamação do delegado.
_
Era só o que me faltava. Roubo de carro acontece sempre. Roubo de defunta é a
primeira ocorrência que faço na vida.
Mas aguardem aqui – os dois aguardaram umas duas horas pensando num
jeito de contar para Neusinha.
Findas
essas duas horas, vem a novidade.
_Pegaram
uns caras que foram assaltar uma padaria. Estavam com o seu maverique, mas não
tinha defunta nenhuma no porta-malas.
Já
faz um tempinho que Neusinha anda tomando umas e outras. Quando bebe um goró a
mais, pega no pé de Caveirinha.
_Cadê minha mãe, filho duma
égua?
Nenhum comentário:
Postar um comentário