quarta-feira, 8 de abril de 2020

Narinha e a ambulância


Narinha e o marido Durvalino não perdiam um pagode nas tardes de sábado, lá no botequim do Alcides. Dos que freqüentavam aquele samba, Celestino era o protagonista, um danado no cavaquinho, além de que era também bom de gogó  e sua cantoria era o que mais animava a gafieira. Sem Celestino o pagode perdia o fôlego, desafinados teimavam em cantar e ninguém se prontificava a arrastar as mesas para um rala-bucho. Bom mesmo era quando se reunia a patota dos instrumentos e  cantadores sob a batuta do Mestre Celestino.
 O time estava completo com Tião no violão, Zeca Venta Grande no contrabaixo, Paulinho Suvaco na sanfona e mais a turma da percussão, dentre esses últimos o Durvalino no reco-reco. Era uma animação de não se dar conta.
Narinha, sempre muito semostradeira e rebolativa, dava uma palhinha quando era para cantar alguma coisa do “Só pra contrariar”, sua banda preferida. Sabia de memória todas as letras dos CDs que colecionava desse grupo. Tinha fotos de Alexandre Pires em tudo que era canto da casa, mesmo sob protestos de Durvalino  que sempre rezingava com aquela admiração.
A pagodeira no bar do Alcides começava rigorosamente às três da tarde e ia até quando Deus quisesse. Deus queria até no máximo uma hora da matina, quando recolhiam as mesas, cadeiras, copos e colocavam aquele mundaréu de garrafas vazias de cervejas nos engradados. Só nessa hora, nunca antes, era que Durvalino colocava Narinha na garupa da sua cinquentinha e tomavam rumo de casa, que ficava ali mesmo na comunidade.
Durvalino era frentista e pegava no batente durante o dia de segunda a sábado. Na segunda ia até mais tarde para livrar a cara mais cedo no sábado. Narinha era do lar.
Mais aí surgiu a notícia que havia uma doença  matando gente  que não acabava mais. Velho pegou é caixão na certa. Foi então que o governo mandou todo mundo para casa. Por todo mundo entenda-se também Alcides que teve de fechar a bodega. Bem, Durvalino não, porque trabalhava em posto de combustível e serviços essenciais não foram interrompidos. Gente da Saúde também ficou no batente.
Na primeira segunda-feira de quarentena, hora do almoço, Narinha passou mal. Meio dia a ambulância com sirene à toda, atravessando aqueles becos esburacados chegou à casa de Narinha. O enfermeiro a colocou no carrinho da maca e o chover ficou no volante disparando a sirene.
Os vizinhos da comunidade se assustaram. Seria o corona? Não deve ter sido. Três da tarde Narinha estava de volta. Deu algumas explicações pelo celular, pois por via das dúvidas ninguém quis chegar perto. Só uma forte indisposição estomacal, justificou.
Terça-feira, no mesmo horário, aí foram as pedras nos rins, mas a ambulância chegou toda prestativa. Narinha foi devidamente socorrida e segundo disse, tomou buscopan na veia e ficou novinha em folha.
Na quarta não deu outra hora, do almoço, Narinha quase morre de pressão alta: deu 23 por 14. Quem disse que o sistema de saúde no Brasil não funciona? O socorro chegou prontamente e novamente a ambulância levou Narinha para alguma emergência.
O mesmo na quinta: enxaqueca. Na sexta ninguém soube do mal que acometeu Narinha porque a ambulância veio buscar, mas não trouxe Narinha de volta.
Uma tragédia. Vou contar. Tem gente que não pode ver alguém feliz e já vai estragar a bem aventurança dos outros. Alguém descobriu e denunciou. A ambulância não tinha ido para clínica alguma, nem para hospital, nem para uma UPA em qualquer um  desses dias quando “socorria” Narinha. O destino era um motelzinho melequetrefe.  A polícia chegou e levou todo mundo em cana. O pior vocês não sabem, vou contar quem era esse “todo mundo”. O motorista era o Celestino e o enfermeiro, o Paulinho Suvaco. Os dois estão afastados  de suas funções e devem ser demitidos a bem do serviço público. Durvalino, por uns dias quis se matar, mas passou a vontade. Está morando no mesmo lugar e tirou os retratos de Alexandre Pires da parede. Narinha? Ninguém mais soube dela. Na comunidade o assunto ainda está na pauta  e quando passa uma ambulância por lá ninguém pensa no coronavirus, as fofoqueiras apenas ironizam: tranquem os maridos que Narinha tá chegando! Ninguém sabe se dizem isso por maldade ou o que é mais provável, por inveja.






terça-feira, 7 de abril de 2020

Porque Mendonça não casou


Culpa minha? Pelo menos é o que ele anda dizendo por aí.  Pois vejam só, eu apenas queria alertar o amigo em questão dessas dificuldades naturais do matrimônio e agora vejo meu nome rolando à boca pequena. Jamais teria eu a intenção de impedir que um amigo da qualidade do Mendonça levasse sua escolhida ao altar. Nunca!
Vou aqui relatar o fato para que o dileto leitor e a querida leitora possam me absolver dessa culpa que o estimado Mendonça tenta me imputar. Vou contar.
Encontrei Mendonça coisa de uns três meses atrás no shopping center. Vinha eu numa direção e ele na contrária até que nos esbarramos. Depois da surpresa e dos “A quanto tempo!”, “É mesmo!”, etc;  resolvemos comemorar essa agradável coincidência.
_ Que tal um chope? – propôs meu camarada.
- Vamos lá. – discordei apenas da quantidade – Um só? Hoje é sábado, Mendonça.
Sentamos e lá veio aquela torre cilíndrica transparente com um liquido amarelinho e precioso quase transbordando. Mendonça firme, esbanjando saúde nos seus trinta anos  e eu catando meus cavacos nos quase setenta. Enchemos nossas tulipas e brindamos o encontro.
_ Como está você, professor? Fazia tempo que não tinha notícias suas – era assim que Mendonça me tratava: de professor. Nunca cheguei a ser professor dele, apenas nos esbarramos pelas veredas da vida e nos tornamos amigos.
_Estou bem Mendonça. Escapando, como dizem. Vejo que você está mais jovial, Parece-me até um pouco eufórico.
_ Verdade, professor. Vim buscar minhas alianças. Vou ficar noivo na próxima semana e já vou marcar a data do casamento para o mais breve possível – e mostrou uma caixinha em veludo azul, abriu e lá estavam aqueles dois aros dourados para justificar todo aquele entusiasmo.
E lá veio ele com conversa me pedindo para falar de casamento. Mas cá entre nós, isso é coisa que se peça tomando chope? Mas já que ele pediu...
_É o seguinte, Mendonça: casamento é algo que facilita a noite, mas complica o dia.
- Como assim? – quis saber ele.
-Preciso desenhar, Mendonça? – ele pensou, sorriu, e disse que eu não precisava desenhar. Então continuei. – No começo é muito bom. A paixão está acesa e é um tal de meu amor pra cá, meu bem pra lá, gentilezas em cada gesto, em cada atitude. Um ano depois meu amigo...
_ Como assim?
_ A briga começa porque cada um aperta o tubo de pasta de dente de um jeito e ela naturalmente diz que o dela é que o certo. E toalha molhada na cama? Errar a pontaria na hora de fazer xixi, você vai ver só a bronca. Desarrumar a gaveta na hora de procurar um par de meias ou uma cueca é para meia hora de reclamação. Nem apareça suado depois de bater uma pelada com os amigos e lá vem ela com o “nem chegue perto de mim”. E acrescenta: “ponha esse tênis fedido lá na lavanderia, aproveita e coloque essa meia catinguenta na máquina de lavar”.
_ Está exagerando!
_Estou? Meu amigo, dois casamentos e descobri que mulheres são todas iguais no quesito de aporrinhar o marido. Você sai de bermuda, chinelo de dedo ela reclama: “vão dizer que não cuido de você”. Se sai bem vestido, lá vem ela: “vai encontrar com quem?” E vou dizer mais, se for ciumenta... Nem na ditadura havia tanta censura. Vai vasculhar seu celular, cheirar sua camisa, etc, etc.
_ Mas tem os filhos
_ Uma graça enquanto estão na maternidade. Depois... Eles começam a vida chorando. E como choram. Vai ver só que delícia um choro das duas às seis da manhã. Depois vão crescendo e dão outro tipo de trabalho. Comprar tênis, pagar colégio bom e ele irá querer celular do último tipo. Vai ter que trabalhar muito Mendonça.  E o que é pior, os instintos da mulher mudam depois que ela se torna mãe. Antes da gravidez, o instinto era o de dar continuidade à espécie, aqueles desejos que devem estar seduzindo você. Depois, é o de proteger a cria. Aí ela  esquece por um bom tempo que você existe, só pensa no pirralho. Vai ficar literalmente na mão.
_ Elas estão chegando, minha sogra está junto. Veja lá o que vai dizer, hein – antes que elas chegassem cochichei nos ouvidos dele:
_ Está vendo a sua sogra? Sua mulher vai ficar daquele jeito.
Nesses dias fiquei sabendo que ele desfez o compromisso. Por que será?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O compadre John Kennedy e a comadre Jaqueline


Pedro Cabacinha, filho de Pedro Cabaça, teve padrinhos tão importantes como nenhum outro brasileiro o teve. Nada mais e nada menos do que aquele casal que habitou a Casa Branca em Washington, o trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos e sua digníssima primeira dama. Padrinhos de batismo, é bom que saibam. Mas isso é toda uma história. Comecemos, então.
             Pedro Cabaça era proprietário, por direito de herança, de uma sitioca nos arredores de Cabaceiras no Cariri paraibano. Daí talvez a alcunha. Nos seus áridos e poucos hectares de chão pedregoso criava seus bodes, cultivava sua macaxeira, semeava milho e feijão de corda no dia de São José. Água pouca, só de cacimba em tempos de bom inverno ou quando o caminhão do governo passava por lá. Vida dura de sertanejo, futuro de pouca luz como a chama frágil de seu candeeiro. À noitinha ligava o radinho de pilha que lhe trazia novidades de terras distantes. Ouvia a “Voz do Brasil”, a novela das oito e depois para as redes todos da casa que o batente era pesado no dia seguinte.
         Na lida, ele, a mulher e as meninas. Meninas? Sim, Pedro Cabaça teve um rosário de maricotas, sete filhas, até que na oitava prenhês de Dona Socorro veio um machinho de três quilos e trezentos gramas com a saúde de um bezerrinho bem nutrido. Nem sei se é de minha competência descrever a alegria do nosso “caba” que prometeu matar até mais de um cabrito, se fosse preciso, para o batizado do caçula que iria ter o nome do pai na pia e nos papéis. É de onde surge o Pedrinho para os de casa e o Cabacinha para os de fora.
          Mas batizado de menino que fecha a fila só de mariazinhas merece padrinho de respeito. O padre? O prefeito? O deputado Fulano de Tal? Que nada, Pedro queria para abençoar o rebento, o presidente. O Sr João Goulart? Não, Jango era coisa pouca. O padrinho tinha de ser o presidente dos Estados Unidos. Só isso.
         Tomado de muita determinação, João Cabaça foi a Campina Grande, na agência dos Correios, ele que era homem de algumas letras, endereçou à Casa Branca, Washington DC, o seguinte telegrama:Convido o Sr Presidente dos EUA John Kennedy PT Sua patroa Dona Jaqueline PT. Batizarem meu filho Pedro PT. Sítio Esperança PT Cabaceiras PT Paraíba PT. Data a combinar.
         Os funcionários que tiveram acesso à postagem, caíram na gargalhada, mas por dever de ofício enviaram a mensagem. Para quem duvida da eficiência dos correios daqui e dos de lá, não é que a mensagem chegou às mãos do destinatário? Este receoso que fosse uma armadilha de Fidel, convocou a CIA, esta o Pentágono até que depois de severa investigação com ajuda da polícia daqui, o bonitão serelepe lá da Casa Branca tomou ciência de que o convite era de um brasileiro lá das brenhas do sertão paraibano, que só podia estar delirando pela ousadia. Mas já que estávamos na época da tal “Aliança para o Progresso”, achou que não devia desconsiderar o convite. Convocou seu embaixador em Brasília, este por sua vez foi atrás do Cônsul-Geral, este outro já chamou o Vice-cônsul, que por sua vez requisitou a presença do Agente Consular, que chamou sua secretária e foram descendo na hierarquia até que chegaram ao Senhor Bernardino, um dos motoristas da embaixada norte americana, um mulato bem aprumado de quase dois metros de altura. Ele e sua consorte Dona Catarina, foram convocados para representar o presidente da mais poderosa nação do planeta no batizado de Pedro Cabacinha
          Um gentil funcionário da representação diplomática norte americana esteve em Cabaceiras, no Sítio Esperança e comunicou a Pedro Cabaça que o presidente estava ocupado com muitas questões para evitar uma Terceira Guerra Mundial (Pedro nem sabia que houvera outras), mas que aceitara tão honroso convite e em não podendo vir, enviaria um representante. Foi marcada a data: 26 de outubro, um sábado. Não era bem o que Pedro queria, mas...Corria o ano de 1963.
         Na hora e data combinadas, a Matriz Nossa Senhora da Conceição estava apinhada de gente quando uma limousine preta com duas bandeirolas americanas no capô, despejou Seu Bernardino e Dona Catarina, aliás muito elegantes, na porta da Igreja para a cerimônia. Pedro matou os cabritos e deu festa com sanfona, doce de mamão verde e muita cachaça, conforme prometera.
        Aconteceu que no dia 22 do mês seguinte, Kennedy seria assassinado. O radinho de pilha trouxe a notícia. Pedro Cabaça emudeceu. Passou dias sem se alimentar direito. Até que Dona Socorro resolveu chamar o padre para uns aconselhamentos. O pároco falou das fatalidades, que o céu espera por homens bons, etc, etc, etc...Até que Pedro Cabaça se justificou:
       _ Sei disso Seu Padre. Compadre Kennedy já se foi. Que Deus o tenha. Estou mesmo é muito preocupado com a comadre Jaqueline – e deixou cair duas lágrimas. Poucas, mas sinceras.


O padre, o menino e cabritinha


                       O PADRE, O MENINO E A CABRITINHA
Cornélio Pires (1884 – 1 958), lá em tempos idos e Rolando Boldrin (1936) nos de hoje, foram e são, dois grandes colecionadores de causos. O primeiro lá da cidade de Tietê e o segundo de São Joaquim da Barra, cidades do interior de São Paulo, têm ambos suas raízes em solo fértil, onde o imaginário popular viça com vigor invejável. Devemos muito a eles da preservação desse rico acervo nascido pela verve dessa gente simples do nosso interior. É dessas brenhas que vem o causo relatado neste texto, que ainda óbvio que seja, vou adiantando não ser fruto de minhas maldades. Na verdade, a autoria é desconhecida e provavelmente recolhido pelos citados acima, mas lembro-me que em meus tempos de menino ouvira isso algures. Mais recentemente, Boldrim, em seu programa de televisão, trouxe esse enredo à baila novamente. Então, vou tentar reproduzir aqui e acrescentar algumas invencionices com o pouco que tenho de talento para essas tarefas. Mas vamos lá.
         Fazia pouco tempo que o padre Nicanor assumira a paróquia de uma dessas cidadezinhas do nosso interior, de tão pouca importância que o nome dessa urbe não tem relevância alguma para nossa história. Voltando ao sacerdote, Padre Nicanor era muito ardiloso e cheio de artimanhas, além do que era ventríloquo, habilidade que escondia de seus paroquianos. Até que um dia foi sua presença requisitada para batizar uma mariazinha que nascera de parto difícil num sitiozinho de alqueire e meio a duas léguas de lonjura da igreja onde nosso sacerdote rezava suas missas, casava e batizava sua gente. Não era de seu feitio atender desses pedidos, mas em se tratando de Seu Bastião, irmão do santíssimo e freqüentador de todas as missas, não podia recusar a missão, desde que viessem buscá-lo e trazê-lo de volta. A tarefa coube ao primogênito da família, o Bastiãozinho, menino que do alto de seus doze anos e mais alguma coisa, era bom de lida em pasto, lavoura e braço direito do Bastião pai.
             Dia mal amanhecendo, Bastãozinho tomou seu café com farinha de milho, leite ainda quente vindo do ubre de Riqueza que ele mesmo ordenhara, pão de ontem com a manteiga de sempre. Atrelou o tordilho Trovão na charrete e partiu levando garrafinha d’água e o bornalzinho com duas pedras de rapadura. Tordilho marchador, não negava passo e em hora marcada a charrete estava lá em frente à casa paroquial cumprindo seu compromisso com as horas.
            O padre tomou assento, Bastiãozinho brandiu o chicotinho que era só para dar aviso e com o seu eita, eita Trovão, o garanhão tomou o caminho de volta.
       _ Bença, Seu Padre.
       _ Deus abençoe você Bastãozinho. Como vão indo pai, a mãe e a irmãzinha que nasceu?
       _ O pai e mãe como Deus quer. Minha irmã do jeito que pode.
       _ E você filho? Porque não tem vindo à missa?
       _ Na lida, Seu Padre. No eito e tratando da criação.
       _ Não tem feito safadeza com a criação, tem?
       _Claro que não, Seu Padre. Sou temente a Deus
       Mas “Seu Padre” não botou muita fé no que Bastiãozinho dizia e começou a armar a arapuca usando suas habilidades de ventríloquo. Em menino com hormônios em ebulição não se deve confiar.
       _ Quem está perto de Deus como eu pode até falar com os bichos. Se você for sempre à igreja, rezar seu terço e cumprir os sacramentos vai poder também. Olha só, vou falar com aquele gavião está naquele galho de cedro. Bom dia, senhor Gavião, conhece Bastiãozinho – e o gavião “respondeu”.
       _ Conheço sim Seu Padre. Menino trabalhador e cuida bem da criação.
       _ Bom dia Dona Vaca, conhece Bastiãozinho?
       _Bastiãozinho, conheço sim. Já vi esse menino nas invernadas tangendo gado.
       Mais à frente um bem-te-vi num mourão de cerca.
      _ Bom dia Bem-te-vi. Bastiãozinho tem se comportado bem?
      _Bom dia Seu Padre. Tenho que sim, mas se eu souber de alguma coisa conto pro senhor - Bastiãozinho ficou assustado e não sabia que era tão conhecido da bicharada. Lá à frente um touro parrudo de aspas largas e o padre nas conversas com o chifrudo.
      _ Bom dia Seu Touro. Alguma coisa para me contar?
       _ De Bastiãozinho nada, Seu Padre, mas o pasto tá seco e com muito carrapato.
       E assim foram. O padre “perguntando” coisas para a bicharada. Bastiãozinho cada vez mais intrigado. Não só isso, cada vez mais preocupado. Foram chegando. Na porteira do sítio, Mimosa, uma cabritinha toda amostrada dando seus pinotes de alegria ao ver Bastiãozinho e ele para o padre:
      _ Seu Padre, não dê confiança para o que ela fala, essa cabritinha é mentirooooooosa!


Caros amigos e amigas



Devido à pandemia do coronavírus, não será possível fazer o lançamento deste meu livro de crônicas que estava previsto para março ou abril. Infelizmente pelas razões citadas isto não foi possível. Não tenho ainda exemplares comigo. Quem se interessar, a compra pode ser feita diretamente na Editora Mondrongo (BA).  Está sendo disponibilizado na modalidade de pré-lançamento. Ainda não está disponível em livrarias. Havendo interesse, basta acessar o link:

Ficaria muito honrado em ter você como meu leitor(a).
Forte abraço
Paiva


Dona Nonoca e a vida dos outros


O nome dela era Albertina. Nonoca ninguém sabe de onde e como surgiu. Assim ficou até domingo passado quando foi prestar suas contas com Deus. Bateu com as dez sem ninguém esperar, de repente, aos oitenta e alguma coisa. Cremadíssima na tardinha de segunda-feira, pois, por decisão de família não foi para a cidade dos pés juntos. Penso que os parentes tiveram receio de que Dona Nonoca pudesse estar eventualmente em estado de catalepsia e despertasse sem mais e nem menos. Por garantia de que aquela viagem da velhinha não tivesse retorno, preferiram o forno. Buraco não era garantia diante das artimanhas daquela ardilosa anciã.
Estive no velório. Assim de gente. Acho mesmo que muitos ali só queriam ter a certeza que Dona Nonoca não respirava mais. Lágrimas? Não vi uma sequer. Nem de parentes próximos ou quaisquer outras gentes. Viva, diziam que quando morresse seriam necessários dois caixões para a defunta em questão. Um para a criatura propriamente dita e um outro, maiorzinho, só para a língua. Não sei que arranjo fizeram os artistas da funerária, mas coube tudo num só. Pelo menos foi o que constatei.
Já que ela passou décadas bisbilhotando a vida alheia, nada há de deselegante que agora eu me ocupe um pouco com a dela. Para começar compartilho com a opinião unânime dos que compareceram às exéquias de Dona Albertina de Sá Carneiro Valadares e Silva: já foi tarde!
O estimado leitor e a leitora que goza da mesma estima de minha parte, podem julgar que conheceram ao longo da vida alguma fuxiqueira. Que nada! Pensam assim porque não conheceram Dona Nonoca, peagadê em mexerico, fofoca, bisbilhotice, enxerimento. Enfim, coisas dessa qualidade. Vejam só:
       Quando alguém casava, ela marcava a data no calendário e contava os meses até o primeiro choro de pirralho. Se em sua estatística não batessem os nove meses protocolares, lá vinham os comentários: “comeram o lanche antes do recreio. Dava para desconfiar que aquela uma não casou moça. Vivia de assanhamentos com tudo que é namorado que teve”. Afirmação que nos permite concluir que fazia tempo que “aquela uma” era vigiada.
          Pobre de minhas vizinhas: “Dona Celeste, Cida me contou que a senhora emprestou dinheiro dela para pagar as contas de água e de luz. Tava com três meses de atraso”. Pronto Dona Cida e Dona Celeste ficaram intrigadas para sempre.
 O filho de seu, Juvêncio, o Edgar descoloriu o cabelo. Pauta das melhores para a velha Nonoca: “sei não, o Dgarzinho não me engana, esse rapaz não sabe se é barro ou se é tijolo”.
De sua janela Dona Nonoca fiscalizava a rua. Pois acreditem, numa dessas manhãs ao passar pelo seu portão de caminho à padaria tive que ouvir: “professor, o senhor precisa deixar de comer frituras. Faz mal pro coração”. Estranhei, mas depois me veio a lembrança que na véspera colocara duas garrafas vazias de óleo de soja no meu lixo. Dá para ver onde Dona Nonoca foi bisbilhotar?
              Aquela revista “Caras”, Dona Nonoca não só lia, estudava! Sabia no mundo das celebridades que estava pegando quem. Adorava um telefone. Seu Ataíde comprou Fiat novinho em folha. Foi só ela ver e já ligou para Dora Rosilda que não ia com os bofes de Dona Gracinha, mulher de Seu Ataíde: “ aquilo é um duro. Vai pagar o carro em cinqüenta vezes, não compra nada à vista. Se virar ele de cabeça para baixo, cai um monte de carnês. Tudo em atraso”. Tinha mania de chamar suas vítimas de “aquilo”.
Todos ali, sabíamos que Dona Nonoca era cobra de muita peçonha. Ritinha, vizinha de casa ao lado, moça velha que a vida jogara para escanteio foi tirar satisfação: “o que a senhora anda dizendo de mim?”. “Disse que você é estressada porque nunca deitou com homem”. “E a senhora deitou?”. Não deitei porque não quis”. Não caberia nesta prestigiosa gazeta os feitos de Dona Nonoca. Fiquemos por aqui. Minha raiva?
Gaspar que é porteiro no prédio da esquina me contou. Vinha ela da quitanda e ao passar pelo edifício comentou a meu respeito com o zelador: “não sei como ele está conseguindo se sentar. Deve estar com o traseiro doendo. Levou um pé na bunda daqueles”. Eu havia terminado um relacionamento na semana anterior. Não sei como Dona Nonoca ficou sabendo, mas teve que me alfinetar.
Na segunda-feira passada fui ao crematório e só saí quando vi o pote com as cinzas da mexeriqueira. Senti um alívio. No primeiro bar tomei a melhor garrafa de cerveja de minha vida e brindei: vá cuidar da vida do satanás!
Pobre do diabo. Nem sabe o que espera por ele.

De como Pedro Cachorra ganhou esse nome


Quem tem nome como o de Pedro Cachorra, não pode ter vida fácil. Pedro Cachorra Barbosa, mais precisamente. Os amigos podem dar um alívio e chamá-lo de Pê Cê Bê, o que suaviza um pouco. Sem querer fazer alguma alusão aqui a essa infeliz escolha, gente com esse nome vai sofrer como cão sem dono. Um pai que registra o filho com um nome desse não tem Jesus no coração. Não pode ter.
 Mas adianto que Pedro Cachorra existe e foi uma luta para registrá-lo. O tabelião botou areia, mas o pai tinha argumentos e que argumentos. A batalha no cartório foi assim:
 _ Como não registrar? Qual é o problema?
          _ Um nome como esse vai constranger a criança na escola. Vai sofrer o resto da vida. O senhor já pensou nisso?
         _ Já, mas não vejo problema algum. Estudei matemática no livro de Manuel Jairo Bezerra. Houve uma artista de televisão chamada Márcia Cabrita, tenho um amigo chamado Justino Cobra. Não tivemos um escritor, o Graça Aranha? E olha que cobra e aranha são bichos peçonhentos.
_ Sei disso, mas colocar cachorra? Já pensou?
_ Se fosse Pedro Minhoca, o senhor registrava?
_ Também não.
_ Cobra pode, mas minhoca não pode. Não dá para entender. Então me explica qual bicho pode, qual bicho não pode.
_ Não é questão desse ou daquele bicho. Acontece que há nomes consagrados pelo uso, outros não. Ninguém tem esse “cachorra” no nome, só isso!
_ Lembrei de um amigo cujo sobrenome é Pulga.
_ Pode ter algum por aí sim, mas cachorra eu não aceito.
_ O senhor aceitaria Pedro Percevejo de Oliveira?
_ Claro que não.
_ Tá aí. Pulga pode e percevejo não pode. Não dá para entender mesmo. Já soube de gente com o sobrenome Dourado e conheço peixe com esse nome, mas já imagino que piranha não pode. Ou seja, tem peixe que pode e tem peixe que não pode.Tem gente até com nome de dois bichos, aquele jurado de televisão não se chama Leão Lobo? Vá entender...
_ São as regras, meu amigo. O mundo precisa de regras ou vira bagunça.

         _ Então, me explica: se meu filho se chamar Pedro Cachorra, o mundo vai ficar pior só por causa disso?
_ Ainda não me convenceu.
_ Conheço um Chico Pinto que é jornalista, mas já vi que João Frango não dá para ser. E veja, frango é só um pinto que cresceu.
_ Não adianta continuar, Cachorra não registro.
_ Meu amigo, o senhor está sem argumentos. Por falar em ave, conheceu aquele craque o Paulo Roberto Falcão? Então Falcão pode, mas bem-te-vi não ia ter jeito. E falando de futebol e aves, temos o Pato, temos o Ganso.
_ Pode falar o que quiser, Cachorra não registro.
_Mas então, escuta. Conheço o João Cordeiro, mas João Veado o senhor não deixa. Veado e cordeiro são bichos muito parecidos, ou não são?
_ Já disse, meu amigo, nome Cachorra não vai existir no meu cartório e pronto!
_ Mas eu vou insistir. Tem gente com nome de Formiga, ou não tem? Nunca vi um Cupim, porque os bonitões do cartório não registram. Só me responde uma coisa.
_ Diz.
_ Coelho pode?
_ Pode
_ E Lebre? Conheci um Lebrão.
_ Se conheceu é porque pode.
_ Mas João Porquinho da Índia nem pensar.
_ Claro que não.
_ Voltando às aves, já vi gente que se chamava Pavão.
_ E daí?
_ E daí que o senhor está de brincadeira. Pavão o senhor registra, mas duvido que registre saracura.
_ Não registro mesmo. Nem saracura e nem cachorra.
_ Se eu colocar Pedro Camelo de Oliveira o senhor registra?
_ Claro que sim.
_ E Pedro Dromedário de Oliveira o senhor aceita? Camelo e dromedário são bichos muito parecidos.

          _ Vamos fazer o seguinte: vou registrar como o senhor deseja. Pobre menino! Só não quero ser o culpado pelo sofrimento dele. Tenho a consciência limpa de que fiz tudo para evitar. Depois que eu entregar a certidão de nascimento, me faz um favor?
_ Qual?
_ Desaparece da minha frente.


quinta-feira, 2 de abril de 2020

Desafio (1)





Toda semana postarei um desafio matemático para os meus alunos ou para quem mais se interessar.
As soluções aos domingos!

Boa sorte!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Só sei que foi assim



O velho Ariano Suassuna fazia reclame dos mentirosos, e como fazia. Gostava deles e achava que sem eles o mundo perdia a graça. Concordo.
Mentir é um dom, como é a música, como é jogar futebol, escrever poesia. Meu pai tentou que eu aprendesse tocar violão. Não consegui nem afinar o instrumento. Parei por aí. Não tem vocação, não adianta insistir. Assim é mentir, é preciso ter vocação, nascer para a coisa.
Dizer para a mãe que não foi você que quebrou aquele jarro da sala, não é mentira digna de admiração. É mera desculpa para se livrar de uma situação embaraçosa. Estamos falando daquelas mentiras construídas com “engenho e arte”. Coisa de especialista no assunto.
Conheci gente muito competente nessa arte. Um foi o Jotinha. Igual a ele, ninguém. Dominava essa atividade como poucos. Ele era um grande contador de causos. Invariavelmente eram mentiras, mas quem não gostava de ouvir? Quem ia cometer a deselegância de desmentir Jotinha? Vamos aqui a dois clássicos desse meu amigo.
Na Rodovia dos Tamoios, descendo de São José dos Campos para Caraguatatuba, depois de Paraibuna, quando a serra começa a ficar brava, íngreme, curvas perigosas, Jotinha estava dirigindo o Aero Willis do pai dele quando o carro perdeu o freio. Jotinha pisou firme, uma, duas, três vezes e nada. Tentou o freio de mão. Nada também. O jeito era reduzir as marchas, colocar uma primeira, tirar o pé do acelerador, e pronto, o motor “morria” e o carro estancava. Mas não deu certo, não conseguia reduzir as marchas, alguma coisa também havia acontecido na embreagem. Mas Jotinha tinha aquela carta escondida na manga. O que fez ele? Quebrou o vidro do velocímetro e foi girando o ponteiro que estava no 140 até o 0, o carro foi queimando pneu e parou de vez. Foi assim que freou o veículo a uns três metros do maior precipício da serra. Por pouco, muito pouco que não foi falar com Deus. Segundo Jotinha, quem passou por lá dois dias depois ainda sentiu cheiro de borracha queimada. Agora a outra pérola.
O Pico do Itapeva é um ponto turístico de Campos do Jordão, mas está situado no município de Pindamonhangaba. Tem altitude de 2030 metros. De lá, nos meses de inverno, quando praticamente não há nuvens na região, pode-se ver entre cidades e distritos algo em torno de quinze localidades. Nesses meses de inverno, é ótimo lugar para se observar o céu e foi por isso que Jotinha cismou de acampar lá num mês de julho de ano que não vem ao caso. Segundo relato de nosso amigo, foram ele e Bilo, também craque no campeonato da primeira divisão em mentiras
Em inverno rigoroso, a temperatura por lá chega fácil a valores negativos. Cinco graus abaixo de zero é comum ocorrer nas madrugadas que vão de junho ao final de agosto. Abaixo disso, não.
Foi numa temporada dessas que Jotinha, segundo ele mesmo, acampou por lá. Como ele mesmo afirmara, Bilo estava presente na parada. Frio, como dizem os gaúchos, de “renquear cusco”. Segundo Jotinha, a temperatura foi abaixo de vinte graus negativos. Raros são os termômetros por lá que registram temperaturas tão baixas em suas escalas, mas segundo Jotinha, o filete de mercúrio foi descendo, descendo, descendo e quando não podia mais descer estourou o termômetro. Já não dava para acreditar, mas o pior veio depois.
Levaram um pequeno telescópio (uma luneta maiorzinha), roupas apropriadas, luvas, gorros, cachecol, botas e o céu lá, sem nuvens, uma lindeza. Tudo estaria uma beleza se não fosse um problema.
Ajeitaram o telescópio para ver alguns planetas e já no finalzinho de tarde viram Mercúrio próximo à linha do horizonte, mais tarde um pouquinho ao lado estava Vênus o mais brilhante de todos, depois Marte com sua cor avermelhada, a seguir Saturno entre o amarelo e o laranja. Júpiter, bem a leste só viram depois das 23 horas. Como duvidar disso? Qualquer astrônomo amador comprovaria esse relato. Então, vamos à dificuldade, segundo o que nos contou Jotinha.
_ Depois das 20 horas eu falava, Bilo não ouvia. Ele dizia alguma coisa eu não escutava. Pensamos que tínhamos ficado surdos devido ao frio. Foi quando descobrimos que quando falávamos nossa voz congelava no caminho. Como fizemos para conversar? Elementar. Quando a voz congelava caiam, umas letrinhas, então, como num quebra-cabeça ordenávamos essas letrinhas, formando frases e pronto. Foi assim que nos comunicamos.
_ Mas Jotinha... E o que fizeram depois com as letrinhas?
_ Bem, eu guardei minhas letrinhas numa latinha e o Bilo guardou também as deles em outra latinha. Fomos dormir. Acordamos cedinho ouvindo a maior conversa. O pior que a vozes pareciam a minha e a do Bilo.
_ E o que era Jotinha?
_ É que a temperatura começou a subir e as letrinhas foram descongelando, então as latinhas começaram a conversar uma com a outra. Foi assim mesmo que aconteceu.

O canarinho que falava


Para o poeta HBF.
                O fato ocorreu comigo e com um poeta. O versejador em questão, por sinal, da melhor qualidade, com igual paixão cultiva versos e os melodiosos trinar de seus canarinhos. Tão conhecido esse bardo, quer por suas festejadas publicações, como pelo seu singular apreço por essas avezinhas canoras, recomendou-me a prudência não revelar sua identidade. Assim o farei, mantendo em segredo seu nome de pia.
           Aproximou-nos a afinidade em coisas das letras. Escrevinhador de parcos recursos que sou, contei com a obsequiosa deferência desse ilustre aedo em aceitar-me no rol dos confrades que costumam molhar a palavra, vulgo beber e jogar conversa fora, nas manhãs de sábado, quando nos encontramos com outros camaradas de copo e de prosa.
          Até que numa dessas manhãs sabáticas descobrimo-nos praticantes juramentados na criação de canários e outorgados doutores de borda e capelo em “canarismo” . Temos, sem exagero algum, autoridade na atividade, em decorrência  do trato mimoso que dispensamos  a esses fascinantes bichinhos cantadores. Provavelmente, esteja aí, a razão de estreitarmos nossos laços de amizade. Com que paixão esse meu amigo se refere aos seus “belgas”, como filhos fossem. Não poupa elogios aos seus “rebentos” e os reconhece até pelo canto, sabendo distinguir se foi Agnaldo Rayol ou Tim Maia quem disparou. Que o gentil leitor saiba, “disparar” não é nenhuma atitude bélica , mas sim o cantar intermitente, predicado só encontrado em canários de qualidade.
         Nunca contabilizei aquele plantel, só me surpreendi com o inusitado  hábito do meu amigo em batizar as avezinhas com nomes de gente famosa. Estão lá o Pavaroti, o Sinatra, o Jair Rodrigues, o Nélson Gonçalves. Há um, coitadinho, que  foi atacado em sua gaiola por uma coruja e perdeu uma perninha, mas continua cantando com todas as virtudes de um solista de ópera. Meu amigo trata com mimo e cortesia esse animalzinho. Desconfio ser o preferido; é o Roberto Carlos. Há entre eles uma fêmea, que por alguma disfunção hormonal arrisca uns dó-ré-mis. Não é lá um cantar de qualidade, mas a danada canta, o que é raro entre elas.  Essa é a Wanderléa. Há um que posto para cruzar com fêmea de excelente linhagem e muita formosura, acabou por dar uma pisa na coitadinha e essa não resistiu vindo a óbito. Suspeita-se ter sido um ato passional de Lindomar (esse é o nome do biltre); ciúme, talvez. Tivesse eu a virtude da paciência, iria aqui listar a qualidade de cada um dos componentes daquela alegre filarmônica. Teria muito a dizer do Orlando Silva, do Altemar Dutra, do Cauby Peixoto. Há um deles,  teima o poeta afirmar, ser um amarelinho que canta em italiano; é o Gianni Morandi.
        Já o meu plantel é mais discreto, uns quinze se tanto. Gosto de procriá-los para poder admirar o esplendoroso e imponderável espetáculo do surgimento de uma vida . E quando esse acontecimento conta com nossa cumplicidade, sentimo-nos mais próximos da natureza e de seus intrigantes mistérios. Sempre cuido disso com esmero e atenção. Escolho um casal para o namoro, promovo a aproximação do meu Tristão e sua Isolda. Não demora que aquela química os aproxime e daí ao enlace é questão de pouco tempo. Disponibilizo algodão para dar conforto ao ninho. Logo o primeiro ovo, depois outro, mais outro. Então é só esperar exatamente treze dias após a postura que aquela coisinha mais feia do mundo surja à luz. Nenhum bicho nasce mais feio do que um canário. Vejam só os pintinhos. Não são aves também? Mas nascem graciosos, alegres e já sabem se alimentar sozinhos. Já os canarinhos...mas, trinta dias depois estão independentes e podem ser separados dos pais. Mais um ou dois meses e começam a ensaiar as primeiras notas. Já presenteei o poeta com alguns filhotes do meu criadouro. Soube que o Michel Theló está de fazer inveja. Eu o escolhi a dedo, pois nosso menestrel merece a presença desse pequenino sertanejo  para encher sua varanda de encanto. É, certamente, mais uma fonte de inspiração.
           Sempre, nos meses de inverno, tiro uma ninhada ou duas. Há outros amigos, que merecem essas minhas deferências. Um ou outro, faz questão de receber esse regalo. Mas, ninguém como nosso beletrista  estima esse pequenino dote empenado.  E daí é que surge esse curioso caso que ora relato.
          Dirão uns ter eu enlouquecido. Aos que nutrem alguma rusga em relação á minha pessoa não faltarão adjetivos para a pecha que tentarão me impor: loroteiro, embusteiro, enganador, farsante, impostor, trampolineiro, trapaceiro, aldravão, intrujão, mentireiro e outros que ainda não constam do meu Aurélio. Mas este impulso de relatar o fato é mais forte do que qualquer resquício de prudência que ainda possa habitar o coração desse humilde narrador. Foi assim:
        Um indivíduo começou a se destacar em uma ninhada. Desenvolvia-se mais ligeiro do que os demais, ganhou penas antes dos irmãos, duas semanas de nascido já beliscava um naco de jiló.e mordiscava uma folha de couve. Nem deu um mês e disparou a cantar. Comprei uma gaiola de dimensões mais generosas para conforto do meu “artista”.  Mansinho, mansinho vinha à minha mão quando lhe oferecia uma lasca de maçã. Com o tempo empoleirava em meus dedos; então, eu esticava os braços e ele vinha com seu andar gracioso até o meu ombro e ali cantava, cantava....Não nego, quantas vezes esse jeito mimoso do meu canarinho me emocionou.
        Numa tarde de domingo, estava ele em meu ombro executando sua doce cantoria enquanto  eu lia o meu suplemento literário e eis que meu bichinho interrompeu seu concerto, balançou aquela cabecinha dourada, olhou-me com aquela ternura que só os canarinhos sabem olhar e....
         _ Tá gostando? – estaria eu delirando? Peguei-o e o coloquei empoleirado em meus dedos e ele continuou com sua voz de menino novo.
            _ Diz pra mim. Tá gostando ou não tá? – eu “tava”, mas aquilo estaria mesmo acontecendo? Pedi a presença da consorte.
          _Vem cá mulher. Veja só isso.
          _Isso o quê?
          _Esse canarinho está falando.
         _ Falando? Canário não fala.  Está louco?
         _ Mas esse está, veja só. Fala, garoto. – então o canarinho deu o ar de sua graça, ou se preferirem, de sua fala.
          _ Eu falo sim, minha senhora. O que quer que fale? – ela não se conteve.
          _ Não pode ser. Não é um truque? Falar já não é pra se acreditar, ainda mais falando assim como fosse gente estudada.
           _ Agradeço o “gente estudada”, minha senhora. Meu discurso é coloquial, não tenho tanto conhecimento da norma culta.
           Olhei para minha mulher e perguntei se não estávamos delirando, Não estávamos. Com muito cuidado guardei o bichinho naquela cela de arame e ainda ouvi da patroa a seguinte ponderação.
          _ Esse bichinho deve valer muito dinheiro.
          Entramos e ele ficou em sua gaiola e esta presa em um caibro  da varanda. Retomou  seu canto com o costumeiro entusiasmo como que se nada estivesse acontecendo.
           Nossas companheiras são dotadas daquele pragmatismo muito escasso nas têmperas masculinas. Algo me dizia que aquela que dividia lençóis comigo começara a fazer planos diferentes dos meus. Ia ser difícil convencer aquele despotismo de saias do valor sentimental do meu canarinho. Até que imbuído  dos modernos preceitos da igualdade de gêneros tratei de desfazer as intenções de minha tirana.
           _ Nem pense em fazer qualquer coisa com meu canário  - mas ela pensara, não em qualquer coisa, mas em muitas coisas.
            _ Quanta custa um curió? Desses que você viu em Santa Catarina. Não havia um que tinha sido campeão em um torneio de canto e você viu comprarem o bichinho por mais de cento e trinta mil reais? Isso foi em 2005, eu me lembro. Imagina quanto estaria valendo hoje! E um canário que fala, então?
           Poderia valer o dinheiro que valesse, não venderia de jeito algum.  Foi então que recorri a um estratagema e para a trama ter sucesso, iria eu pedir socorro ao meu querido fazedor de versos. Esperei pela ausência de minha soberana  e liguei para o trovador.
            _Poeta, tenho uma surpresa. Tem a ver com canários, mas só digo pessoalmente. Você vai se surpreender.
            _ Diga logo, homem.
            _ Só pessoalmente.
            _Mas, precisa ser agora?
            _Agora, não. A-go-ri-nha!
            _ Não pode adiantar alguma coisa
            _Só pessoalmente, já disse.
            _ Estou indo. Dá uns minutos. Vou trocar de roupa e já, já, estarei aí.
            _ Mas, me faz o seguinte.
            _O quê?
            _ Sabe aquele canarinho amarelo com um “borradinho” na asa esquerda?
            _Sei, o Reginaldo Rossi.
            _Ele mesmo. Traz, mas deixa a gaiola com ele no carro. Quando você entrar eu explico.
            _Espero que seja algo interessante.  Não me vá fazer perder tempo.
            _ Fica tranqüilo. Você vai se surpreender.       
          O poeta veio. Não demorou quinze minutos e lá estávamos nós palestrando na varanda.
            _Poeta, você não vai acreditar. Tá vendo aquele canarinho ali? O amarelinho com uma manchinha preta na asa?
            _ Tô.
            _ Pois você não vai acreditar, ele fala.
            _ Tá brincando...
            _ Pois então, veja. Fala com ele Amarelinho – eu já o batizara de Amarelinho, ele não me decepcionou.
            _O nome do senhor, é Poeta? – o poeta nem conseguia falar. Fui em seu socorro.
            _  Ele é um poeta. Poeta é quem escreve poesias, mas o nome dele é outro – então, o canarinho retornou.
            _ Bom dia fazedor de poesias. Quando puder faz uns versinhos pra mim. Vou apreciar – só então, meu amigo despertou do torpor.
            _Não é que ele fala mesmo – enquanto isso eu  só confirmei.
            _Fala, e como fala! É sabido o danado.
            Foi então que tive que explicar. Dada a semelhança entre meu borradinho falador e o do poeta, o Reginaldo Rossi, pedi para que fizéssemos a troca, eu ficava com o dele e ele ficava com o meu, Aí era só eu dizer que o meu canarinho parara de falar. Assim, a patroa desistiria do seu ardil de passar meu canário nos cobres. Cobrei atitudes do poeta.
            _Pode fazer essa gentileza para mim?  Só por uns dias. Mas não revela esse segredo, e se for falar com o canarinho, faz no particular.
            _Já deu nome para ele?
           _Amarelinho.
            _Isso lá é nome de canário? Posso batizar o bichinho?
            _Já escolheu um nome?
            _Fidel Castro
            _Mas Fidel Castro não cantava.
            _Mas falava...
            Foi assim, que pelo menos provisoriamente, Reginaldo Rossi ficou morando em minha casa e Fidel Castro foi passar uns dias na casa do poeta.
           A artimanha dera certo. Minha mulher, ela mesma, constatou que o canarinho emudecera. Não percebeu a troca, afinal, Reginaldo Rossi e Fidel Castro eram muito parecidos. E a partir de então, sempre que me encontrava com o cronista (o poeta era cronista também) ele tinha sempre uma história para contar de Fidel Castro. Contou-me ele que esperava o anoitecer para prosear com o canário falador. O poeta punha a gaiola sobre um tamborete próximo à rede e ali ficavam proseando. E esposa se intrigava de ouvir vozes no alpendre.
          _ Tá conversando com quem?
            _ Com ninguém.  Estou decorando um discurso que vou fazer na Academia. Vem cá para ver. – e ela ia pra ver, não o discurso, mas o provável interlocutor.
            _Nossa! Parece que tinha gente conversando com você.
          Assim as primeiras horas da noite encontravam os dois celebrando aquela amizade. Disse-me o poeta que abriam as mais diversas pautas e discorriam acerca de uma variedade considerável de temas. O mistério era descobrir como aquela criaturinha aprendera tanta coisa a despeito de ser tão jovem. A esse tempo devia ter uns três meses de vida. Só isso. Já dizia o bardo inglês: “Há mais coisas entre o céu e a terra [...]”. E é assim. Há mistérios que não somos capazes de desvendar.
            Tempos depois aventei a possibilidade de desfazermos a troca. Afinal, a criatura lá em casa foi se esquecendo daquela “caderneta de poupança” trancafiada na gaiola. Não falava mais. Ela tentou puxar conversa.
            _Oiiiiiiiiiiiiiiii. Fala com a titia – E Reginaldo Rossi, nem aí pra ela. Cantava, isso sim. Cantava muito o danadinho, mas falar...
           Até que um dia acordei com aquela impressão, que algo de muito ruim acontecera ou estava para acontecer. Fui direto procurar o Reginaldo Rossi. Qual o quê!? Lá estava ele mortinho da silva na gaiola. Peguei-o  e os olhinhos negros pareciam me dizer adeus. Há os que não irão crer, mas que vontade de chorar eu tive! Gostava de ver Reginaldo Rossi cantando. Tinha um jeitão despojado, diferente. Mas era só me ver disparava a cantar. Como não sentir a perda de um bichinho desses? O problema era comunicar o fato ao Poeta. Tínhamos prometido cuidar com esmero das avizinhas e eu falhara em minhas incumbências. Não havia mais o que fazer, dei um beijo no cocuruto de Reginaldo e o  coloquei num saquinho de supermercado. Daí à lata de lixo, mas ressalvo que o fiz com o maior respeito, afinal Reginaldo Rossi estava deixando esse mundo e eu nunca mais veria sua maneira singela de inaugurar a vida todas as manhãs: cantando!
            Dizem por aí que nada está tão ruim que não possa piorar, e pude então sentir no coração a veracidade dessa premissa. À noite o poeta me telefonou.
            _ Diz, aí poeta. O que manda?
            _ Tenho uma coisa pra lhe dizer.
            _ Pois então, diga homem.
            _ Fidel fugiu. Talvez eu não tenha fechado a gaiola corretamente quando fui tratar dele. Só sei que quando fui ver a gaiola estava aberta e
nada de Fidel.
        Aproveitei a ocasião para dizer do ocorrido com Reginaldo Rossi. Lamentamos a coincidência. Aves de cativeiro não estão aptas a sobreviver quando soltas e Fidel não iria certamente  gozar da liberdade por muito tempo.
        Alguns dias depois nos encontramos, eu e o nosso vate. Fizemos um pacto de que não revelaríamos para ninguém o ocorrido. Se o fizéssemos passaríamos no mínimo por loucos. Levaríamos ao túmulo (ou dependendo de escolhas futuras, ao crematório) aquele nosso segredo. Ninguém ficaria sabendo que Reginaldo Rossi passara uns dias em minha casa cantando só para mim e nem saberiam que Fidel Castro estivera uns dias na casa do poeta, conversando com ele à noitinha e algumas vezes até dava uma canja cantando como só Fidel Castro sabia cantar.

Lançamento do Livro

Devido à pandemia do novo coronavírus (COVID-19), a editora Mondrongo (BA) adiou "sine die" o lançamento do meu livro O Coturno e As Margaridas.


A referida editora irá em breve permitir a solicitação de compras online. Logo estarei atualizando as informações!

Paiva 

Quin da Galega e o tatu Sandoval


Na mesma rua lá em Taperoá, havia três criaturas com nome de Joaquim. O nosso ficou conhecido como Quim da Galega, numa alusão às madeixas da falecida mãe. Os outros dois Quins, não têm importância para nossa história.
Bem, o nosso Quim cresceu dado às práticas cinegéticas. Mas do que se trata isso? É a arte (arte?) de soltar a cachorrada no mato para caçar. Folguinha que tivesse no trabalho lá ia ele com a espingarda de dois canos calibre dezesseis, bornal, rapadura no bolso, cantil e toda alegria do mundo para soltar a cachorrada atrás de bicho para matar e comer. Tratava com muito mimo, Nero, Sansão e Golias, três vira-latas, mas que para rastrear e encontrar toca de tatu não havia igual nesse mundão de Deus.
Pois numa dessas empreitadas, noite de lua cheia, ele e seus “meninos” (era assim que tratava sua pequena matilha) acuaram um tatu-peba bem embaixo de um juazeiro. Conteve “as crianças” pegou o peba colocou no bornal e resolveu que ia levar para casa e criar. Assim  fez. Tinha um cercado no quintal, que fora aterrado com muita metralha e tatu nenhum seria capaz de fazer toca naquele chão. Resolveu engordar o peba com bom trato até o bicho se limpar por dentro já que, embora injustamente, essa qualidade de tatu tem fama de comer carne de defuntos.
Prometeu para seu compadre Belarmino que assim que o peba engordasse iria levar o bicho para Campina Grande. O compadre sabia como ninguém tratar carne de caça. Ele, o Quim, não tinha as manhas nem de matar bicho. Ia deixar tudo por conta do compadre. Já imaginou que ia ser um banquete daqueles.
Véspera de São João, dia mal amanhecendo, pegou  mulher, seu menino Quinzinho, colocou o peba numa dessas pequenas jaulas onde se coloca cães para viajar de avião. Todos dentro de seu chevete azul turquesa e pegaram estrada. Só não esperava que um pouquinho depois de Soledade a Polícia Rodoviária o parasse. Estavam ali conferindo velocidade e viram que aquele chevete estava com muita pressa de chegar ao destino... Quim mostrou a documentação. Tudo em ordem, mas tentou uma falação para se livrar da multa por excesso de velocidade e com naquele demorado quás-quás-quás  a autoridade viu o peba todo quietinho na jaula colocada no banco de trás.
_ O que é isso, meu senhor?
_ Não está vendo? É um tatu. É de estimação. Meu menino cria ele. São assim um com o outro – e esfregou o dedo indicador no indicador da outra mão  para registrar a benquerença.
_É um animal silvestre. Caçar animais como esse é crime. Lei 5 197 em vigor desde 1967. É crime e é inafiançável. Posso prender o senhor.
_Mas eu não tô caçando. Tô só levando o Sandoval junto com meu filho e a mulher  pra Campina Grande.
_Sandoval?
_Isso, Sandoval é o nome do peba. Tá comigo desde que o menino nasceu. Ganhou do padrinho. O menino ia sentir falta dele, por isso trouxe o Sandoval com a gente.
O policial foi amolecendo. Ou quase.
_Tanto caçar como transportar animal silvestre é crime do mesmo jeito.
_Mas seu guarda, não faz isso com o meu menino. Sandoval tá domesticado. O bichinho é ensinado. Atende pelo nome que é uma belezura. O senhor precisa ver.
Mas “seu guarda” não queria ceder.
_ Se eu mostrar pro senhor como ele é ensinado e obedece quando chamado pelo nome de Sandoval, o senhor me libera?
_ Vou ter que deter o senhor. Não vai adiantar coisa alguma, mas pode mostrar. Pensando bem, se mostrar que ele atende pelo nome eu libero, mas vou fazer isso em consideração ao menino, não ao senhor. Pode mostrar.
Com muito jeito, Quim pegou o tatu, colocou o bicho de frente para o mato e soltou o peba. O tatu, como se diz, pegou o beco e se mandou dentro da mata. Nem um segundo  depois o “seu guarda” já queria ver se o peba era obediente:
_Agora chama o tatu que eu quero ver se ele é ensinado mesmo – e ficou olhando para Quim.
E Quim com aquele sorriso nos lábios:
_Que tatu?