sexta-feira, 3 de abril de 2020

O padre, o menino e cabritinha


                       O PADRE, O MENINO E A CABRITINHA
Cornélio Pires (1884 – 1 958), lá em tempos idos e Rolando Boldrin (1936) nos de hoje, foram e são, dois grandes colecionadores de causos. O primeiro lá da cidade de Tietê e o segundo de São Joaquim da Barra, cidades do interior de São Paulo, têm ambos suas raízes em solo fértil, onde o imaginário popular viça com vigor invejável. Devemos muito a eles da preservação desse rico acervo nascido pela verve dessa gente simples do nosso interior. É dessas brenhas que vem o causo relatado neste texto, que ainda óbvio que seja, vou adiantando não ser fruto de minhas maldades. Na verdade, a autoria é desconhecida e provavelmente recolhido pelos citados acima, mas lembro-me que em meus tempos de menino ouvira isso algures. Mais recentemente, Boldrim, em seu programa de televisão, trouxe esse enredo à baila novamente. Então, vou tentar reproduzir aqui e acrescentar algumas invencionices com o pouco que tenho de talento para essas tarefas. Mas vamos lá.
         Fazia pouco tempo que o padre Nicanor assumira a paróquia de uma dessas cidadezinhas do nosso interior, de tão pouca importância que o nome dessa urbe não tem relevância alguma para nossa história. Voltando ao sacerdote, Padre Nicanor era muito ardiloso e cheio de artimanhas, além do que era ventríloquo, habilidade que escondia de seus paroquianos. Até que um dia foi sua presença requisitada para batizar uma mariazinha que nascera de parto difícil num sitiozinho de alqueire e meio a duas léguas de lonjura da igreja onde nosso sacerdote rezava suas missas, casava e batizava sua gente. Não era de seu feitio atender desses pedidos, mas em se tratando de Seu Bastião, irmão do santíssimo e freqüentador de todas as missas, não podia recusar a missão, desde que viessem buscá-lo e trazê-lo de volta. A tarefa coube ao primogênito da família, o Bastiãozinho, menino que do alto de seus doze anos e mais alguma coisa, era bom de lida em pasto, lavoura e braço direito do Bastião pai.
             Dia mal amanhecendo, Bastãozinho tomou seu café com farinha de milho, leite ainda quente vindo do ubre de Riqueza que ele mesmo ordenhara, pão de ontem com a manteiga de sempre. Atrelou o tordilho Trovão na charrete e partiu levando garrafinha d’água e o bornalzinho com duas pedras de rapadura. Tordilho marchador, não negava passo e em hora marcada a charrete estava lá em frente à casa paroquial cumprindo seu compromisso com as horas.
            O padre tomou assento, Bastiãozinho brandiu o chicotinho que era só para dar aviso e com o seu eita, eita Trovão, o garanhão tomou o caminho de volta.
       _ Bença, Seu Padre.
       _ Deus abençoe você Bastãozinho. Como vão indo pai, a mãe e a irmãzinha que nasceu?
       _ O pai e mãe como Deus quer. Minha irmã do jeito que pode.
       _ E você filho? Porque não tem vindo à missa?
       _ Na lida, Seu Padre. No eito e tratando da criação.
       _ Não tem feito safadeza com a criação, tem?
       _Claro que não, Seu Padre. Sou temente a Deus
       Mas “Seu Padre” não botou muita fé no que Bastiãozinho dizia e começou a armar a arapuca usando suas habilidades de ventríloquo. Em menino com hormônios em ebulição não se deve confiar.
       _ Quem está perto de Deus como eu pode até falar com os bichos. Se você for sempre à igreja, rezar seu terço e cumprir os sacramentos vai poder também. Olha só, vou falar com aquele gavião está naquele galho de cedro. Bom dia, senhor Gavião, conhece Bastiãozinho – e o gavião “respondeu”.
       _ Conheço sim Seu Padre. Menino trabalhador e cuida bem da criação.
       _ Bom dia Dona Vaca, conhece Bastiãozinho?
       _Bastiãozinho, conheço sim. Já vi esse menino nas invernadas tangendo gado.
       Mais à frente um bem-te-vi num mourão de cerca.
      _ Bom dia Bem-te-vi. Bastiãozinho tem se comportado bem?
      _Bom dia Seu Padre. Tenho que sim, mas se eu souber de alguma coisa conto pro senhor - Bastiãozinho ficou assustado e não sabia que era tão conhecido da bicharada. Lá à frente um touro parrudo de aspas largas e o padre nas conversas com o chifrudo.
      _ Bom dia Seu Touro. Alguma coisa para me contar?
       _ De Bastiãozinho nada, Seu Padre, mas o pasto tá seco e com muito carrapato.
       E assim foram. O padre “perguntando” coisas para a bicharada. Bastiãozinho cada vez mais intrigado. Não só isso, cada vez mais preocupado. Foram chegando. Na porteira do sítio, Mimosa, uma cabritinha toda amostrada dando seus pinotes de alegria ao ver Bastiãozinho e ele para o padre:
      _ Seu Padre, não dê confiança para o que ela fala, essa cabritinha é mentirooooooosa!


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