Para o poeta HBF.
O fato ocorreu comigo e com um poeta. O versejador
em questão, por sinal, da melhor qualidade, com igual paixão cultiva versos e
os melodiosos trinar de seus canarinhos. Tão conhecido esse bardo, quer por
suas festejadas publicações, como pelo seu singular apreço por essas avezinhas
canoras, recomendou-me a prudência não revelar sua identidade. Assim o farei, mantendo
em segredo seu nome de pia.
Aproximou-nos a afinidade em coisas das letras. Escrevinhador de parcos recursos que sou, contei com a obsequiosa deferência desse ilustre aedo em aceitar-me no rol dos confrades que costumam molhar a palavra, vulgo beber e jogar conversa fora, nas manhãs de sábado, quando nos encontramos com outros camaradas de copo e de prosa.
Até que numa dessas manhãs sabáticas descobrimo-nos praticantes juramentados na criação de canários e outorgados doutores de borda e capelo em “canarismo” . Temos, sem exagero algum, autoridade na atividade, em decorrência do trato mimoso que dispensamos a esses fascinantes bichinhos cantadores. Provavelmente, esteja aí, a razão de estreitarmos nossos laços de amizade. Com que paixão esse meu amigo se refere aos seus “belgas”, como filhos fossem. Não poupa elogios aos seus “rebentos” e os reconhece até pelo canto, sabendo distinguir se foi Agnaldo Rayol ou Tim Maia quem disparou. Que o gentil leitor saiba, “disparar” não é nenhuma atitude bélica , mas sim o cantar intermitente, predicado só encontrado em canários de qualidade.
Nunca contabilizei aquele plantel, só me surpreendi com o inusitado hábito do meu amigo em batizar as avezinhas com nomes de gente famosa. Estão lá o Pavaroti, o Sinatra, o Jair Rodrigues, o Nélson Gonçalves. Há um, coitadinho, que foi atacado em sua gaiola por uma coruja e perdeu uma perninha, mas continua cantando com todas as virtudes de um solista de ópera. Meu amigo trata com mimo e cortesia esse animalzinho. Desconfio ser o preferido; é o Roberto Carlos. Há entre eles uma fêmea, que por alguma disfunção hormonal arrisca uns dó-ré-mis. Não é lá um cantar de qualidade, mas a danada canta, o que é raro entre elas. Essa é a Wanderléa. Há um que posto para cruzar com fêmea de excelente linhagem e muita formosura, acabou por dar uma pisa na coitadinha e essa não resistiu vindo a óbito. Suspeita-se ter sido um ato passional de Lindomar (esse é o nome do biltre); ciúme, talvez. Tivesse eu a virtude da paciência, iria aqui listar a qualidade de cada um dos componentes daquela alegre filarmônica. Teria muito a dizer do Orlando Silva, do Altemar Dutra, do Cauby Peixoto. Há um deles, teima o poeta afirmar, ser um amarelinho que canta em italiano; é o Gianni Morandi.
Já o meu plantel é mais discreto, uns quinze se tanto. Gosto de procriá-los para poder admirar o esplendoroso e imponderável espetáculo do surgimento de uma vida . E quando esse acontecimento conta com nossa cumplicidade, sentimo-nos mais próximos da natureza e de seus intrigantes mistérios. Sempre cuido disso com esmero e atenção. Escolho um casal para o namoro, promovo a aproximação do meu Tristão e sua Isolda. Não demora que aquela química os aproxime e daí ao enlace é questão de pouco tempo. Disponibilizo algodão para dar conforto ao ninho. Logo o primeiro ovo, depois outro, mais outro. Então é só esperar exatamente treze dias após a postura que aquela coisinha mais feia do mundo surja à luz. Nenhum bicho nasce mais feio do que um canário. Vejam só os pintinhos. Não são aves também? Mas nascem graciosos, alegres e já sabem se alimentar sozinhos. Já os canarinhos...mas, trinta dias depois estão independentes e podem ser separados dos pais. Mais um ou dois meses e começam a ensaiar as primeiras notas. Já presenteei o poeta com alguns filhotes do meu criadouro. Soube que o Michel Theló está de fazer inveja. Eu o escolhi a dedo, pois nosso menestrel merece a presença desse pequenino sertanejo para encher sua varanda de encanto. É, certamente, mais uma fonte de inspiração.
Sempre, nos meses de inverno, tiro uma ninhada ou duas. Há outros amigos, que merecem essas minhas deferências. Um ou outro, faz questão de receber esse regalo. Mas, ninguém como nosso beletrista estima esse pequenino dote empenado. E daí é que surge esse curioso caso que ora relato.
Dirão uns ter eu enlouquecido. Aos que nutrem alguma rusga em relação á minha pessoa não faltarão adjetivos para a pecha que tentarão me impor: loroteiro, embusteiro, enganador, farsante, impostor, trampolineiro, trapaceiro, aldravão, intrujão, mentireiro e outros que ainda não constam do meu Aurélio. Mas este impulso de relatar o fato é mais forte do que qualquer resquício de prudência que ainda possa habitar o coração desse humilde narrador. Foi assim:
Um indivíduo começou a se destacar em uma ninhada. Desenvolvia-se mais ligeiro do que os demais, ganhou penas antes dos irmãos, duas semanas de nascido já beliscava um naco de jiló.e mordiscava uma folha de couve. Nem deu um mês e disparou a cantar. Comprei uma gaiola de dimensões mais generosas para conforto do meu “artista”. Mansinho, mansinho vinha à minha mão quando lhe oferecia uma lasca de maçã. Com o tempo empoleirava em meus dedos; então, eu esticava os braços e ele vinha com seu andar gracioso até o meu ombro e ali cantava, cantava....Não nego, quantas vezes esse jeito mimoso do meu canarinho me emocionou.
Numa tarde de domingo, estava ele em meu ombro executando sua doce cantoria enquanto eu lia o meu suplemento literário e eis que meu bichinho interrompeu seu concerto, balançou aquela cabecinha dourada, olhou-me com aquela ternura que só os canarinhos sabem olhar e....
_ Tá gostando? – estaria eu delirando? Peguei-o e o coloquei empoleirado em meus dedos e ele continuou com sua voz de menino novo.
_ Diz pra mim. Tá gostando ou não tá? – eu “tava”, mas aquilo estaria mesmo acontecendo? Pedi a presença da consorte.
_Vem cá mulher. Veja só isso.
_Isso o quê?
_Esse canarinho está falando.
_ Falando? Canário não fala. Está louco?
_ Mas esse está, veja só. Fala, garoto. – então o canarinho deu o ar de sua graça, ou se preferirem, de sua fala.
_ Eu falo sim, minha senhora. O que quer que fale? – ela não se conteve.
_ Não pode ser. Não é um truque? Falar já não é pra se acreditar, ainda mais falando assim como fosse gente estudada.
_ Agradeço o “gente estudada”, minha senhora. Meu discurso é coloquial, não tenho tanto conhecimento da norma culta.
Olhei para minha mulher e perguntei se não estávamos delirando, Não estávamos. Com muito cuidado guardei o bichinho naquela cela de arame e ainda ouvi da patroa a seguinte ponderação.
_ Esse bichinho deve valer muito dinheiro.
Entramos e ele ficou em sua gaiola e esta presa em um caibro da varanda. Retomou seu canto com o costumeiro entusiasmo como que se nada estivesse acontecendo.
Nossas companheiras são dotadas daquele pragmatismo muito escasso nas têmperas masculinas. Algo me dizia que aquela que dividia lençóis comigo começara a fazer planos diferentes dos meus. Ia ser difícil convencer aquele despotismo de saias do valor sentimental do meu canarinho. Até que imbuído dos modernos preceitos da igualdade de gêneros tratei de desfazer as intenções de minha tirana.
_ Nem pense em fazer qualquer coisa com meu canário - mas ela pensara, não em qualquer coisa, mas em muitas coisas.
_ Quanta custa um curió? Desses que você viu em Santa Catarina. Não havia um que tinha sido campeão em um torneio de canto e você viu comprarem o bichinho por mais de cento e trinta mil reais? Isso foi em 2005, eu me lembro. Imagina quanto estaria valendo hoje! E um canário que fala, então?
Poderia valer o dinheiro que valesse, não venderia de jeito algum. Foi então que recorri a um estratagema e para a trama ter sucesso, iria eu pedir socorro ao meu querido fazedor de versos. Esperei pela ausência de minha soberana e liguei para o trovador.
_Poeta, tenho uma surpresa. Tem a ver com canários, mas só digo pessoalmente. Você vai se surpreender.
_ Diga logo, homem.
_ Só pessoalmente.
_Mas, precisa ser agora?
_Agora, não. A-go-ri-nha!
_ Não pode adiantar alguma coisa
_Só pessoalmente, já disse.
_ Estou indo. Dá uns minutos. Vou trocar de roupa e já, já, estarei aí.
_ Mas, me faz o seguinte.
_O quê?
_ Sabe aquele canarinho amarelo com um “borradinho” na asa esquerda?
_Sei, o Reginaldo Rossi.
_Ele mesmo. Traz, mas deixa a gaiola com ele no carro. Quando você entrar eu explico.
_Espero que seja algo interessante. Não me vá fazer perder tempo.
_ Fica tranqüilo. Você vai se surpreender.
O poeta veio. Não demorou quinze minutos e lá estávamos nós palestrando na varanda.
_Poeta, você não vai acreditar. Tá vendo aquele canarinho ali? O amarelinho com uma manchinha preta na asa?
_ Tô.
_ Pois você não vai acreditar, ele fala.
_ Tá brincando...
_ Pois então, veja. Fala com ele Amarelinho – eu já o batizara de Amarelinho, ele não me decepcionou.
_O nome do senhor, é Poeta? – o poeta nem conseguia falar. Fui em seu socorro.
_ Ele é um poeta. Poeta é quem escreve poesias, mas o nome dele é outro – então, o canarinho retornou.
_ Bom dia fazedor de poesias. Quando puder faz uns versinhos pra mim. Vou apreciar – só então, meu amigo despertou do torpor.
_Não é que ele fala mesmo – enquanto isso eu só confirmei.
_Fala, e como fala! É sabido o danado.
Foi então que tive que explicar. Dada a semelhança entre meu borradinho falador e o do poeta, o Reginaldo Rossi, pedi para que fizéssemos a troca, eu ficava com o dele e ele ficava com o meu, Aí era só eu dizer que o meu canarinho parara de falar. Assim, a patroa desistiria do seu ardil de passar meu canário nos cobres. Cobrei atitudes do poeta.
_Pode fazer essa gentileza para mim? Só por uns dias. Mas não revela esse segredo, e se for falar com o canarinho, faz no particular.
_Já deu nome para ele?
_Amarelinho.
_Isso lá é nome de canário? Posso batizar o bichinho?
_Já escolheu um nome?
_Fidel Castro
_Mas Fidel Castro não cantava.
_Mas falava...
Foi assim, que pelo menos provisoriamente, Reginaldo Rossi ficou morando em minha casa e Fidel Castro foi passar uns dias na casa do poeta.
A artimanha dera certo. Minha mulher, ela mesma, constatou que o canarinho emudecera. Não percebeu a troca, afinal, Reginaldo Rossi e Fidel Castro eram muito parecidos. E a partir de então, sempre que me encontrava com o cronista (o poeta era cronista também) ele tinha sempre uma história para contar de Fidel Castro. Contou-me ele que esperava o anoitecer para prosear com o canário falador. O poeta punha a gaiola sobre um tamborete próximo à rede e ali ficavam proseando. E esposa se intrigava de ouvir vozes no alpendre.
_ Tá conversando com quem?
_ Com ninguém. Estou decorando um discurso que vou fazer na Academia. Vem cá para ver. – e ela ia pra ver, não o discurso, mas o provável interlocutor.
_Nossa! Parece que tinha gente conversando com você.
Assim as primeiras horas da noite encontravam os dois celebrando aquela amizade. Disse-me o poeta que abriam as mais diversas pautas e discorriam acerca de uma variedade considerável de temas. O mistério era descobrir como aquela criaturinha aprendera tanta coisa a despeito de ser tão jovem. A esse tempo devia ter uns três meses de vida. Só isso. Já dizia o bardo inglês: “Há mais coisas entre o céu e a terra [...]”. E é assim. Há mistérios que não somos capazes de desvendar.
Tempos depois aventei a possibilidade de desfazermos a troca. Afinal, a criatura lá em casa foi se esquecendo daquela “caderneta de poupança” trancafiada na gaiola. Não falava mais. Ela tentou puxar conversa.
_Oiiiiiiiiiiiiiiii. Fala com a titia – E Reginaldo Rossi, nem aí pra ela. Cantava, isso sim. Cantava muito o danadinho, mas falar...
Até que um dia acordei com aquela impressão, que algo de muito ruim acontecera ou estava para acontecer. Fui direto procurar o Reginaldo Rossi. Qual o quê!? Lá estava ele mortinho da silva na gaiola. Peguei-o e os olhinhos negros pareciam me dizer adeus. Há os que não irão crer, mas que vontade de chorar eu tive! Gostava de ver Reginaldo Rossi cantando. Tinha um jeitão despojado, diferente. Mas era só me ver disparava a cantar. Como não sentir a perda de um bichinho desses? O problema era comunicar o fato ao Poeta. Tínhamos prometido cuidar com esmero das avizinhas e eu falhara em minhas incumbências. Não havia mais o que fazer, dei um beijo no cocuruto de Reginaldo e o coloquei num saquinho de supermercado. Daí à lata de lixo, mas ressalvo que o fiz com o maior respeito, afinal Reginaldo Rossi estava deixando esse mundo e eu nunca mais veria sua maneira singela de inaugurar a vida todas as manhãs: cantando!
Dizem por aí que nada está tão ruim que não possa piorar, e pude então sentir no coração a veracidade dessa premissa. À noite o poeta me telefonou.
_ Diz, aí poeta. O que manda?
_ Tenho uma coisa pra lhe dizer.
_ Pois então, diga homem.
_ Fidel fugiu. Talvez eu não tenha fechado a gaiola corretamente quando fui tratar dele. Só sei que quando fui ver a gaiola estava aberta e
nada de Fidel.
Aproveitei a ocasião para dizer do ocorrido com Reginaldo Rossi. Lamentamos a coincidência. Aves de cativeiro não estão aptas a sobreviver quando soltas e Fidel não iria certamente gozar da liberdade por muito tempo.
Alguns dias depois nos encontramos, eu e o nosso vate. Fizemos um pacto de que não revelaríamos para ninguém o ocorrido. Se o fizéssemos passaríamos no mínimo por loucos. Levaríamos ao túmulo (ou dependendo de escolhas futuras, ao crematório) aquele nosso segredo. Ninguém ficaria sabendo que Reginaldo Rossi passara uns dias em minha casa cantando só para mim e nem saberiam que Fidel Castro estivera uns dias na casa do poeta, conversando com ele à noitinha e algumas vezes até dava uma canja cantando como só Fidel Castro sabia cantar.
Aproximou-nos a afinidade em coisas das letras. Escrevinhador de parcos recursos que sou, contei com a obsequiosa deferência desse ilustre aedo em aceitar-me no rol dos confrades que costumam molhar a palavra, vulgo beber e jogar conversa fora, nas manhãs de sábado, quando nos encontramos com outros camaradas de copo e de prosa.
Até que numa dessas manhãs sabáticas descobrimo-nos praticantes juramentados na criação de canários e outorgados doutores de borda e capelo em “canarismo” . Temos, sem exagero algum, autoridade na atividade, em decorrência do trato mimoso que dispensamos a esses fascinantes bichinhos cantadores. Provavelmente, esteja aí, a razão de estreitarmos nossos laços de amizade. Com que paixão esse meu amigo se refere aos seus “belgas”, como filhos fossem. Não poupa elogios aos seus “rebentos” e os reconhece até pelo canto, sabendo distinguir se foi Agnaldo Rayol ou Tim Maia quem disparou. Que o gentil leitor saiba, “disparar” não é nenhuma atitude bélica , mas sim o cantar intermitente, predicado só encontrado em canários de qualidade.
Nunca contabilizei aquele plantel, só me surpreendi com o inusitado hábito do meu amigo em batizar as avezinhas com nomes de gente famosa. Estão lá o Pavaroti, o Sinatra, o Jair Rodrigues, o Nélson Gonçalves. Há um, coitadinho, que foi atacado em sua gaiola por uma coruja e perdeu uma perninha, mas continua cantando com todas as virtudes de um solista de ópera. Meu amigo trata com mimo e cortesia esse animalzinho. Desconfio ser o preferido; é o Roberto Carlos. Há entre eles uma fêmea, que por alguma disfunção hormonal arrisca uns dó-ré-mis. Não é lá um cantar de qualidade, mas a danada canta, o que é raro entre elas. Essa é a Wanderléa. Há um que posto para cruzar com fêmea de excelente linhagem e muita formosura, acabou por dar uma pisa na coitadinha e essa não resistiu vindo a óbito. Suspeita-se ter sido um ato passional de Lindomar (esse é o nome do biltre); ciúme, talvez. Tivesse eu a virtude da paciência, iria aqui listar a qualidade de cada um dos componentes daquela alegre filarmônica. Teria muito a dizer do Orlando Silva, do Altemar Dutra, do Cauby Peixoto. Há um deles, teima o poeta afirmar, ser um amarelinho que canta em italiano; é o Gianni Morandi.
Já o meu plantel é mais discreto, uns quinze se tanto. Gosto de procriá-los para poder admirar o esplendoroso e imponderável espetáculo do surgimento de uma vida . E quando esse acontecimento conta com nossa cumplicidade, sentimo-nos mais próximos da natureza e de seus intrigantes mistérios. Sempre cuido disso com esmero e atenção. Escolho um casal para o namoro, promovo a aproximação do meu Tristão e sua Isolda. Não demora que aquela química os aproxime e daí ao enlace é questão de pouco tempo. Disponibilizo algodão para dar conforto ao ninho. Logo o primeiro ovo, depois outro, mais outro. Então é só esperar exatamente treze dias após a postura que aquela coisinha mais feia do mundo surja à luz. Nenhum bicho nasce mais feio do que um canário. Vejam só os pintinhos. Não são aves também? Mas nascem graciosos, alegres e já sabem se alimentar sozinhos. Já os canarinhos...mas, trinta dias depois estão independentes e podem ser separados dos pais. Mais um ou dois meses e começam a ensaiar as primeiras notas. Já presenteei o poeta com alguns filhotes do meu criadouro. Soube que o Michel Theló está de fazer inveja. Eu o escolhi a dedo, pois nosso menestrel merece a presença desse pequenino sertanejo para encher sua varanda de encanto. É, certamente, mais uma fonte de inspiração.
Sempre, nos meses de inverno, tiro uma ninhada ou duas. Há outros amigos, que merecem essas minhas deferências. Um ou outro, faz questão de receber esse regalo. Mas, ninguém como nosso beletrista estima esse pequenino dote empenado. E daí é que surge esse curioso caso que ora relato.
Dirão uns ter eu enlouquecido. Aos que nutrem alguma rusga em relação á minha pessoa não faltarão adjetivos para a pecha que tentarão me impor: loroteiro, embusteiro, enganador, farsante, impostor, trampolineiro, trapaceiro, aldravão, intrujão, mentireiro e outros que ainda não constam do meu Aurélio. Mas este impulso de relatar o fato é mais forte do que qualquer resquício de prudência que ainda possa habitar o coração desse humilde narrador. Foi assim:
Um indivíduo começou a se destacar em uma ninhada. Desenvolvia-se mais ligeiro do que os demais, ganhou penas antes dos irmãos, duas semanas de nascido já beliscava um naco de jiló.e mordiscava uma folha de couve. Nem deu um mês e disparou a cantar. Comprei uma gaiola de dimensões mais generosas para conforto do meu “artista”. Mansinho, mansinho vinha à minha mão quando lhe oferecia uma lasca de maçã. Com o tempo empoleirava em meus dedos; então, eu esticava os braços e ele vinha com seu andar gracioso até o meu ombro e ali cantava, cantava....Não nego, quantas vezes esse jeito mimoso do meu canarinho me emocionou.
Numa tarde de domingo, estava ele em meu ombro executando sua doce cantoria enquanto eu lia o meu suplemento literário e eis que meu bichinho interrompeu seu concerto, balançou aquela cabecinha dourada, olhou-me com aquela ternura que só os canarinhos sabem olhar e....
_ Tá gostando? – estaria eu delirando? Peguei-o e o coloquei empoleirado em meus dedos e ele continuou com sua voz de menino novo.
_ Diz pra mim. Tá gostando ou não tá? – eu “tava”, mas aquilo estaria mesmo acontecendo? Pedi a presença da consorte.
_Vem cá mulher. Veja só isso.
_Isso o quê?
_Esse canarinho está falando.
_ Falando? Canário não fala. Está louco?
_ Mas esse está, veja só. Fala, garoto. – então o canarinho deu o ar de sua graça, ou se preferirem, de sua fala.
_ Eu falo sim, minha senhora. O que quer que fale? – ela não se conteve.
_ Não pode ser. Não é um truque? Falar já não é pra se acreditar, ainda mais falando assim como fosse gente estudada.
_ Agradeço o “gente estudada”, minha senhora. Meu discurso é coloquial, não tenho tanto conhecimento da norma culta.
Olhei para minha mulher e perguntei se não estávamos delirando, Não estávamos. Com muito cuidado guardei o bichinho naquela cela de arame e ainda ouvi da patroa a seguinte ponderação.
_ Esse bichinho deve valer muito dinheiro.
Entramos e ele ficou em sua gaiola e esta presa em um caibro da varanda. Retomou seu canto com o costumeiro entusiasmo como que se nada estivesse acontecendo.
Nossas companheiras são dotadas daquele pragmatismo muito escasso nas têmperas masculinas. Algo me dizia que aquela que dividia lençóis comigo começara a fazer planos diferentes dos meus. Ia ser difícil convencer aquele despotismo de saias do valor sentimental do meu canarinho. Até que imbuído dos modernos preceitos da igualdade de gêneros tratei de desfazer as intenções de minha tirana.
_ Nem pense em fazer qualquer coisa com meu canário - mas ela pensara, não em qualquer coisa, mas em muitas coisas.
_ Quanta custa um curió? Desses que você viu em Santa Catarina. Não havia um que tinha sido campeão em um torneio de canto e você viu comprarem o bichinho por mais de cento e trinta mil reais? Isso foi em 2005, eu me lembro. Imagina quanto estaria valendo hoje! E um canário que fala, então?
Poderia valer o dinheiro que valesse, não venderia de jeito algum. Foi então que recorri a um estratagema e para a trama ter sucesso, iria eu pedir socorro ao meu querido fazedor de versos. Esperei pela ausência de minha soberana e liguei para o trovador.
_Poeta, tenho uma surpresa. Tem a ver com canários, mas só digo pessoalmente. Você vai se surpreender.
_ Diga logo, homem.
_ Só pessoalmente.
_Mas, precisa ser agora?
_Agora, não. A-go-ri-nha!
_ Não pode adiantar alguma coisa
_Só pessoalmente, já disse.
_ Estou indo. Dá uns minutos. Vou trocar de roupa e já, já, estarei aí.
_ Mas, me faz o seguinte.
_O quê?
_ Sabe aquele canarinho amarelo com um “borradinho” na asa esquerda?
_Sei, o Reginaldo Rossi.
_Ele mesmo. Traz, mas deixa a gaiola com ele no carro. Quando você entrar eu explico.
_Espero que seja algo interessante. Não me vá fazer perder tempo.
_ Fica tranqüilo. Você vai se surpreender.
O poeta veio. Não demorou quinze minutos e lá estávamos nós palestrando na varanda.
_Poeta, você não vai acreditar. Tá vendo aquele canarinho ali? O amarelinho com uma manchinha preta na asa?
_ Tô.
_ Pois você não vai acreditar, ele fala.
_ Tá brincando...
_ Pois então, veja. Fala com ele Amarelinho – eu já o batizara de Amarelinho, ele não me decepcionou.
_O nome do senhor, é Poeta? – o poeta nem conseguia falar. Fui em seu socorro.
_ Ele é um poeta. Poeta é quem escreve poesias, mas o nome dele é outro – então, o canarinho retornou.
_ Bom dia fazedor de poesias. Quando puder faz uns versinhos pra mim. Vou apreciar – só então, meu amigo despertou do torpor.
_Não é que ele fala mesmo – enquanto isso eu só confirmei.
_Fala, e como fala! É sabido o danado.
Foi então que tive que explicar. Dada a semelhança entre meu borradinho falador e o do poeta, o Reginaldo Rossi, pedi para que fizéssemos a troca, eu ficava com o dele e ele ficava com o meu, Aí era só eu dizer que o meu canarinho parara de falar. Assim, a patroa desistiria do seu ardil de passar meu canário nos cobres. Cobrei atitudes do poeta.
_Pode fazer essa gentileza para mim? Só por uns dias. Mas não revela esse segredo, e se for falar com o canarinho, faz no particular.
_Já deu nome para ele?
_Amarelinho.
_Isso lá é nome de canário? Posso batizar o bichinho?
_Já escolheu um nome?
_Fidel Castro
_Mas Fidel Castro não cantava.
_Mas falava...
Foi assim, que pelo menos provisoriamente, Reginaldo Rossi ficou morando em minha casa e Fidel Castro foi passar uns dias na casa do poeta.
A artimanha dera certo. Minha mulher, ela mesma, constatou que o canarinho emudecera. Não percebeu a troca, afinal, Reginaldo Rossi e Fidel Castro eram muito parecidos. E a partir de então, sempre que me encontrava com o cronista (o poeta era cronista também) ele tinha sempre uma história para contar de Fidel Castro. Contou-me ele que esperava o anoitecer para prosear com o canário falador. O poeta punha a gaiola sobre um tamborete próximo à rede e ali ficavam proseando. E esposa se intrigava de ouvir vozes no alpendre.
_ Tá conversando com quem?
_ Com ninguém. Estou decorando um discurso que vou fazer na Academia. Vem cá para ver. – e ela ia pra ver, não o discurso, mas o provável interlocutor.
_Nossa! Parece que tinha gente conversando com você.
Assim as primeiras horas da noite encontravam os dois celebrando aquela amizade. Disse-me o poeta que abriam as mais diversas pautas e discorriam acerca de uma variedade considerável de temas. O mistério era descobrir como aquela criaturinha aprendera tanta coisa a despeito de ser tão jovem. A esse tempo devia ter uns três meses de vida. Só isso. Já dizia o bardo inglês: “Há mais coisas entre o céu e a terra [...]”. E é assim. Há mistérios que não somos capazes de desvendar.
Tempos depois aventei a possibilidade de desfazermos a troca. Afinal, a criatura lá em casa foi se esquecendo daquela “caderneta de poupança” trancafiada na gaiola. Não falava mais. Ela tentou puxar conversa.
_Oiiiiiiiiiiiiiiii. Fala com a titia – E Reginaldo Rossi, nem aí pra ela. Cantava, isso sim. Cantava muito o danadinho, mas falar...
Até que um dia acordei com aquela impressão, que algo de muito ruim acontecera ou estava para acontecer. Fui direto procurar o Reginaldo Rossi. Qual o quê!? Lá estava ele mortinho da silva na gaiola. Peguei-o e os olhinhos negros pareciam me dizer adeus. Há os que não irão crer, mas que vontade de chorar eu tive! Gostava de ver Reginaldo Rossi cantando. Tinha um jeitão despojado, diferente. Mas era só me ver disparava a cantar. Como não sentir a perda de um bichinho desses? O problema era comunicar o fato ao Poeta. Tínhamos prometido cuidar com esmero das avizinhas e eu falhara em minhas incumbências. Não havia mais o que fazer, dei um beijo no cocuruto de Reginaldo e o coloquei num saquinho de supermercado. Daí à lata de lixo, mas ressalvo que o fiz com o maior respeito, afinal Reginaldo Rossi estava deixando esse mundo e eu nunca mais veria sua maneira singela de inaugurar a vida todas as manhãs: cantando!
Dizem por aí que nada está tão ruim que não possa piorar, e pude então sentir no coração a veracidade dessa premissa. À noite o poeta me telefonou.
_ Diz, aí poeta. O que manda?
_ Tenho uma coisa pra lhe dizer.
_ Pois então, diga homem.
_ Fidel fugiu. Talvez eu não tenha fechado a gaiola corretamente quando fui tratar dele. Só sei que quando fui ver a gaiola estava aberta e
nada de Fidel.
Aproveitei a ocasião para dizer do ocorrido com Reginaldo Rossi. Lamentamos a coincidência. Aves de cativeiro não estão aptas a sobreviver quando soltas e Fidel não iria certamente gozar da liberdade por muito tempo.
Alguns dias depois nos encontramos, eu e o nosso vate. Fizemos um pacto de que não revelaríamos para ninguém o ocorrido. Se o fizéssemos passaríamos no mínimo por loucos. Levaríamos ao túmulo (ou dependendo de escolhas futuras, ao crematório) aquele nosso segredo. Ninguém ficaria sabendo que Reginaldo Rossi passara uns dias em minha casa cantando só para mim e nem saberiam que Fidel Castro estivera uns dias na casa do poeta, conversando com ele à noitinha e algumas vezes até dava uma canja cantando como só Fidel Castro sabia cantar.
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