O velho Ariano Suassuna fazia reclame dos
mentirosos, e como fazia. Gostava deles e achava que sem eles o mundo perdia a
graça. Concordo.
Mentir é um dom, como é a música, como é jogar futebol, escrever poesia. Meu pai tentou que eu aprendesse tocar violão. Não consegui nem afinar o instrumento. Parei por aí. Não tem vocação, não adianta insistir. Assim é mentir, é preciso ter vocação, nascer para a coisa.
Dizer para a mãe que não foi você que quebrou aquele jarro da sala, não é mentira digna de admiração. É mera desculpa para se livrar de uma situação embaraçosa. Estamos falando daquelas mentiras construídas com “engenho e arte”. Coisa de especialista no assunto.
Conheci gente muito competente nessa arte. Um foi o Jotinha. Igual a ele, ninguém. Dominava essa atividade como poucos. Ele era um grande contador de causos. Invariavelmente eram mentiras, mas quem não gostava de ouvir? Quem ia cometer a deselegância de desmentir Jotinha? Vamos aqui a dois clássicos desse meu amigo.
Na Rodovia dos Tamoios, descendo de São José dos Campos para Caraguatatuba, depois de Paraibuna, quando a serra começa a ficar brava, íngreme, curvas perigosas, Jotinha estava dirigindo o Aero Willis do pai dele quando o carro perdeu o freio. Jotinha pisou firme, uma, duas, três vezes e nada. Tentou o freio de mão. Nada também. O jeito era reduzir as marchas, colocar uma primeira, tirar o pé do acelerador, e pronto, o motor “morria” e o carro estancava. Mas não deu certo, não conseguia reduzir as marchas, alguma coisa também havia acontecido na embreagem. Mas Jotinha tinha aquela carta escondida na manga. O que fez ele? Quebrou o vidro do velocímetro e foi girando o ponteiro que estava no 140 até o 0, o carro foi queimando pneu e parou de vez. Foi assim que freou o veículo a uns três metros do maior precipício da serra. Por pouco, muito pouco que não foi falar com Deus. Segundo Jotinha, quem passou por lá dois dias depois ainda sentiu cheiro de borracha queimada. Agora a outra pérola.
O Pico do Itapeva é um ponto turístico de Campos do Jordão, mas está situado no município de Pindamonhangaba. Tem altitude de 2030 metros. De lá, nos meses de inverno, quando praticamente não há nuvens na região, pode-se ver entre cidades e distritos algo em torno de quinze localidades. Nesses meses de inverno, é ótimo lugar para se observar o céu e foi por isso que Jotinha cismou de acampar lá num mês de julho de ano que não vem ao caso. Segundo relato de nosso amigo, foram ele e Bilo, também craque no campeonato da primeira divisão em mentiras
Em inverno rigoroso, a temperatura por lá chega fácil a valores negativos. Cinco graus abaixo de zero é comum ocorrer nas madrugadas que vão de junho ao final de agosto. Abaixo disso, não.
Foi numa temporada dessas que Jotinha, segundo ele mesmo, acampou por lá. Como ele mesmo afirmara, Bilo estava presente na parada. Frio, como dizem os gaúchos, de “renquear cusco”. Segundo Jotinha, a temperatura foi abaixo de vinte graus negativos. Raros são os termômetros por lá que registram temperaturas tão baixas em suas escalas, mas segundo Jotinha, o filete de mercúrio foi descendo, descendo, descendo e quando não podia mais descer estourou o termômetro. Já não dava para acreditar, mas o pior veio depois.
Levaram um pequeno telescópio (uma luneta maiorzinha), roupas apropriadas, luvas, gorros, cachecol, botas e o céu lá, sem nuvens, uma lindeza. Tudo estaria uma beleza se não fosse um problema.
Ajeitaram o telescópio para ver alguns planetas e já no finalzinho de tarde viram Mercúrio próximo à linha do horizonte, mais tarde um pouquinho ao lado estava Vênus o mais brilhante de todos, depois Marte com sua cor avermelhada, a seguir Saturno entre o amarelo e o laranja. Júpiter, bem a leste só viram depois das 23 horas. Como duvidar disso? Qualquer astrônomo amador comprovaria esse relato. Então, vamos à dificuldade, segundo o que nos contou Jotinha.
_ Depois das 20 horas eu falava, Bilo não ouvia. Ele dizia alguma coisa eu não escutava. Pensamos que tínhamos ficado surdos devido ao frio. Foi quando descobrimos que quando falávamos nossa voz congelava no caminho. Como fizemos para conversar? Elementar. Quando a voz congelava caiam, umas letrinhas, então, como num quebra-cabeça ordenávamos essas letrinhas, formando frases e pronto. Foi assim que nos comunicamos.
_ Mas Jotinha... E o que fizeram depois com as letrinhas?
_ Bem, eu guardei minhas letrinhas numa latinha e o Bilo guardou também as deles em outra latinha. Fomos dormir. Acordamos cedinho ouvindo a maior conversa. O pior que a vozes pareciam a minha e a do Bilo.
_ E o que era Jotinha?
_ É que a temperatura começou a subir e as letrinhas foram descongelando, então as latinhas começaram a conversar uma com a outra. Foi assim mesmo que aconteceu.
Mentir é um dom, como é a música, como é jogar futebol, escrever poesia. Meu pai tentou que eu aprendesse tocar violão. Não consegui nem afinar o instrumento. Parei por aí. Não tem vocação, não adianta insistir. Assim é mentir, é preciso ter vocação, nascer para a coisa.
Dizer para a mãe que não foi você que quebrou aquele jarro da sala, não é mentira digna de admiração. É mera desculpa para se livrar de uma situação embaraçosa. Estamos falando daquelas mentiras construídas com “engenho e arte”. Coisa de especialista no assunto.
Conheci gente muito competente nessa arte. Um foi o Jotinha. Igual a ele, ninguém. Dominava essa atividade como poucos. Ele era um grande contador de causos. Invariavelmente eram mentiras, mas quem não gostava de ouvir? Quem ia cometer a deselegância de desmentir Jotinha? Vamos aqui a dois clássicos desse meu amigo.
Na Rodovia dos Tamoios, descendo de São José dos Campos para Caraguatatuba, depois de Paraibuna, quando a serra começa a ficar brava, íngreme, curvas perigosas, Jotinha estava dirigindo o Aero Willis do pai dele quando o carro perdeu o freio. Jotinha pisou firme, uma, duas, três vezes e nada. Tentou o freio de mão. Nada também. O jeito era reduzir as marchas, colocar uma primeira, tirar o pé do acelerador, e pronto, o motor “morria” e o carro estancava. Mas não deu certo, não conseguia reduzir as marchas, alguma coisa também havia acontecido na embreagem. Mas Jotinha tinha aquela carta escondida na manga. O que fez ele? Quebrou o vidro do velocímetro e foi girando o ponteiro que estava no 140 até o 0, o carro foi queimando pneu e parou de vez. Foi assim que freou o veículo a uns três metros do maior precipício da serra. Por pouco, muito pouco que não foi falar com Deus. Segundo Jotinha, quem passou por lá dois dias depois ainda sentiu cheiro de borracha queimada. Agora a outra pérola.
O Pico do Itapeva é um ponto turístico de Campos do Jordão, mas está situado no município de Pindamonhangaba. Tem altitude de 2030 metros. De lá, nos meses de inverno, quando praticamente não há nuvens na região, pode-se ver entre cidades e distritos algo em torno de quinze localidades. Nesses meses de inverno, é ótimo lugar para se observar o céu e foi por isso que Jotinha cismou de acampar lá num mês de julho de ano que não vem ao caso. Segundo relato de nosso amigo, foram ele e Bilo, também craque no campeonato da primeira divisão em mentiras
Em inverno rigoroso, a temperatura por lá chega fácil a valores negativos. Cinco graus abaixo de zero é comum ocorrer nas madrugadas que vão de junho ao final de agosto. Abaixo disso, não.
Foi numa temporada dessas que Jotinha, segundo ele mesmo, acampou por lá. Como ele mesmo afirmara, Bilo estava presente na parada. Frio, como dizem os gaúchos, de “renquear cusco”. Segundo Jotinha, a temperatura foi abaixo de vinte graus negativos. Raros são os termômetros por lá que registram temperaturas tão baixas em suas escalas, mas segundo Jotinha, o filete de mercúrio foi descendo, descendo, descendo e quando não podia mais descer estourou o termômetro. Já não dava para acreditar, mas o pior veio depois.
Levaram um pequeno telescópio (uma luneta maiorzinha), roupas apropriadas, luvas, gorros, cachecol, botas e o céu lá, sem nuvens, uma lindeza. Tudo estaria uma beleza se não fosse um problema.
Ajeitaram o telescópio para ver alguns planetas e já no finalzinho de tarde viram Mercúrio próximo à linha do horizonte, mais tarde um pouquinho ao lado estava Vênus o mais brilhante de todos, depois Marte com sua cor avermelhada, a seguir Saturno entre o amarelo e o laranja. Júpiter, bem a leste só viram depois das 23 horas. Como duvidar disso? Qualquer astrônomo amador comprovaria esse relato. Então, vamos à dificuldade, segundo o que nos contou Jotinha.
_ Depois das 20 horas eu falava, Bilo não ouvia. Ele dizia alguma coisa eu não escutava. Pensamos que tínhamos ficado surdos devido ao frio. Foi quando descobrimos que quando falávamos nossa voz congelava no caminho. Como fizemos para conversar? Elementar. Quando a voz congelava caiam, umas letrinhas, então, como num quebra-cabeça ordenávamos essas letrinhas, formando frases e pronto. Foi assim que nos comunicamos.
_ Mas Jotinha... E o que fizeram depois com as letrinhas?
_ Bem, eu guardei minhas letrinhas numa latinha e o Bilo guardou também as deles em outra latinha. Fomos dormir. Acordamos cedinho ouvindo a maior conversa. O pior que a vozes pareciam a minha e a do Bilo.
_ E o que era Jotinha?
_ É que a temperatura começou a subir e as letrinhas foram descongelando, então as latinhas começaram a conversar uma com a outra. Foi assim mesmo que aconteceu.
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