Na
mesma rua lá em Taperoá, havia três criaturas com nome de Joaquim. O nosso
ficou conhecido como Quim da Galega, numa alusão às madeixas da falecida mãe.
Os outros dois Quins, não têm importância para nossa história.
Bem,
o nosso Quim cresceu dado às práticas cinegéticas. Mas do que se trata isso? É
a arte (arte?) de soltar a cachorrada no mato para caçar. Folguinha que tivesse
no trabalho lá ia ele com a espingarda de dois canos calibre dezesseis, bornal,
rapadura no bolso, cantil e toda alegria do mundo para soltar a cachorrada
atrás de bicho para matar e comer. Tratava com muito mimo, Nero, Sansão e
Golias, três vira-latas, mas que para rastrear e encontrar toca de tatu não
havia igual nesse mundão de Deus.
Pois
numa dessas empreitadas, noite de lua cheia, ele e seus “meninos” (era assim
que tratava sua pequena matilha) acuaram um tatu-peba bem embaixo de um
juazeiro. Conteve “as crianças” pegou o peba colocou no bornal e resolveu que
ia levar para casa e criar. Assim fez. Tinha
um cercado no quintal, que fora aterrado com muita metralha e tatu nenhum seria
capaz de fazer toca naquele chão. Resolveu engordar o peba com bom trato até o
bicho se limpar por dentro já que, embora injustamente, essa qualidade de tatu
tem fama de comer carne de defuntos.
Prometeu
para seu compadre Belarmino que assim que o peba engordasse iria levar o bicho
para Campina Grande. O compadre sabia como ninguém tratar carne de caça. Ele, o
Quim, não tinha as manhas nem de matar bicho. Ia deixar tudo por conta do
compadre. Já imaginou que ia ser um banquete daqueles.
Véspera
de São João, dia mal amanhecendo, pegou
mulher, seu menino Quinzinho, colocou o peba numa dessas pequenas jaulas
onde se coloca cães para viajar de avião. Todos dentro de seu chevete azul
turquesa e pegaram estrada. Só não esperava que um pouquinho depois de Soledade
a Polícia Rodoviária o parasse. Estavam ali conferindo velocidade e viram que aquele
chevete estava com muita pressa de chegar ao destino... Quim mostrou a documentação.
Tudo em ordem, mas tentou uma falação para se livrar da multa por excesso de
velocidade e com naquele demorado quás-quás-quás a autoridade viu o peba todo quietinho na
jaula colocada no banco de trás.
_
O que é isso, meu senhor?
_
Não está vendo? É um tatu. É de estimação. Meu menino cria ele. São assim um
com o outro – e esfregou o dedo indicador no indicador da outra mão para registrar a benquerença.
_É
um animal silvestre. Caçar animais como esse é crime. Lei 5 197 em vigor desde
1967. É crime e é inafiançável. Posso prender o senhor.
_Mas
eu não tô caçando. Tô só levando o Sandoval junto com meu filho e a mulher pra Campina Grande.
_Sandoval?
_Isso,
Sandoval é o nome do peba. Tá comigo desde que o menino nasceu. Ganhou do
padrinho. O menino ia sentir falta dele, por isso trouxe o Sandoval com a
gente.
O
policial foi amolecendo. Ou quase.
_Tanto
caçar como transportar animal silvestre é crime do mesmo jeito.
_Mas
seu guarda, não faz isso com o meu menino. Sandoval tá domesticado. O bichinho
é ensinado. Atende pelo nome que é uma belezura. O senhor precisa ver.
Mas
“seu guarda” não queria ceder.
_
Se eu mostrar pro senhor como ele é ensinado e obedece quando chamado pelo nome
de Sandoval, o senhor me libera?
_
Vou ter que deter o senhor. Não vai adiantar coisa alguma, mas pode mostrar.
Pensando bem, se mostrar que ele atende pelo nome eu libero, mas vou fazer isso
em consideração ao menino, não ao senhor. Pode mostrar.
Com
muito jeito, Quim pegou o tatu, colocou o bicho de frente para o mato e soltou
o peba. O tatu, como se diz, pegou o beco e se mandou dentro da mata. Nem um
segundo depois o “seu guarda” já queria
ver se o peba era obediente:
_Agora
chama o tatu que eu quero ver se ele é ensinado mesmo – e ficou olhando para
Quim.
E
Quim com aquele sorriso nos lábios:
_Que tatu?
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