quarta-feira, 1 de abril de 2020

Quin da Galega e o tatu Sandoval


Na mesma rua lá em Taperoá, havia três criaturas com nome de Joaquim. O nosso ficou conhecido como Quim da Galega, numa alusão às madeixas da falecida mãe. Os outros dois Quins, não têm importância para nossa história.
Bem, o nosso Quim cresceu dado às práticas cinegéticas. Mas do que se trata isso? É a arte (arte?) de soltar a cachorrada no mato para caçar. Folguinha que tivesse no trabalho lá ia ele com a espingarda de dois canos calibre dezesseis, bornal, rapadura no bolso, cantil e toda alegria do mundo para soltar a cachorrada atrás de bicho para matar e comer. Tratava com muito mimo, Nero, Sansão e Golias, três vira-latas, mas que para rastrear e encontrar toca de tatu não havia igual nesse mundão de Deus.
Pois numa dessas empreitadas, noite de lua cheia, ele e seus “meninos” (era assim que tratava sua pequena matilha) acuaram um tatu-peba bem embaixo de um juazeiro. Conteve “as crianças” pegou o peba colocou no bornal e resolveu que ia levar para casa e criar. Assim  fez. Tinha um cercado no quintal, que fora aterrado com muita metralha e tatu nenhum seria capaz de fazer toca naquele chão. Resolveu engordar o peba com bom trato até o bicho se limpar por dentro já que, embora injustamente, essa qualidade de tatu tem fama de comer carne de defuntos.
Prometeu para seu compadre Belarmino que assim que o peba engordasse iria levar o bicho para Campina Grande. O compadre sabia como ninguém tratar carne de caça. Ele, o Quim, não tinha as manhas nem de matar bicho. Ia deixar tudo por conta do compadre. Já imaginou que ia ser um banquete daqueles.
Véspera de São João, dia mal amanhecendo, pegou  mulher, seu menino Quinzinho, colocou o peba numa dessas pequenas jaulas onde se coloca cães para viajar de avião. Todos dentro de seu chevete azul turquesa e pegaram estrada. Só não esperava que um pouquinho depois de Soledade a Polícia Rodoviária o parasse. Estavam ali conferindo velocidade e viram que aquele chevete estava com muita pressa de chegar ao destino... Quim mostrou a documentação. Tudo em ordem, mas tentou uma falação para se livrar da multa por excesso de velocidade e com naquele demorado quás-quás-quás  a autoridade viu o peba todo quietinho na jaula colocada no banco de trás.
_ O que é isso, meu senhor?
_ Não está vendo? É um tatu. É de estimação. Meu menino cria ele. São assim um com o outro – e esfregou o dedo indicador no indicador da outra mão  para registrar a benquerença.
_É um animal silvestre. Caçar animais como esse é crime. Lei 5 197 em vigor desde 1967. É crime e é inafiançável. Posso prender o senhor.
_Mas eu não tô caçando. Tô só levando o Sandoval junto com meu filho e a mulher  pra Campina Grande.
_Sandoval?
_Isso, Sandoval é o nome do peba. Tá comigo desde que o menino nasceu. Ganhou do padrinho. O menino ia sentir falta dele, por isso trouxe o Sandoval com a gente.
O policial foi amolecendo. Ou quase.
_Tanto caçar como transportar animal silvestre é crime do mesmo jeito.
_Mas seu guarda, não faz isso com o meu menino. Sandoval tá domesticado. O bichinho é ensinado. Atende pelo nome que é uma belezura. O senhor precisa ver.
Mas “seu guarda” não queria ceder.
_ Se eu mostrar pro senhor como ele é ensinado e obedece quando chamado pelo nome de Sandoval, o senhor me libera?
_ Vou ter que deter o senhor. Não vai adiantar coisa alguma, mas pode mostrar. Pensando bem, se mostrar que ele atende pelo nome eu libero, mas vou fazer isso em consideração ao menino, não ao senhor. Pode mostrar.
Com muito jeito, Quim pegou o tatu, colocou o bicho de frente para o mato e soltou o peba. O tatu, como se diz, pegou o beco e se mandou dentro da mata. Nem um segundo  depois o “seu guarda” já queria ver se o peba era obediente:
_Agora chama o tatu que eu quero ver se ele é ensinado mesmo – e ficou olhando para Quim.
E Quim com aquele sorriso nos lábios:
_Que tatu? 


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