Culpa
minha? Pelo menos é o que ele anda dizendo por aí. Pois vejam só, eu apenas queria alertar o
amigo em questão dessas dificuldades naturais do matrimônio e agora vejo meu
nome rolando à boca pequena. Jamais teria eu a intenção de impedir que um amigo
da qualidade do Mendonça levasse sua escolhida ao altar. Nunca!
Vou
aqui relatar o fato para que o dileto leitor e a querida leitora possam me
absolver dessa culpa que o estimado Mendonça tenta me imputar. Vou contar.
Encontrei
Mendonça coisa de uns três meses atrás no shopping center. Vinha eu numa
direção e ele na contrária até que nos esbarramos. Depois da surpresa e dos “A
quanto tempo!”, “É mesmo!”, etc; resolvemos
comemorar essa agradável coincidência.
_
Que tal um chope? – propôs meu camarada.
-
Vamos lá. – discordei apenas da quantidade – Um só? Hoje é sábado, Mendonça.
Sentamos
e lá veio aquela torre cilíndrica transparente com um liquido amarelinho e
precioso quase transbordando. Mendonça firme, esbanjando saúde nos seus trinta
anos e eu catando meus cavacos nos quase
setenta. Enchemos nossas tulipas e brindamos o encontro.
_
Como está você, professor? Fazia tempo que não tinha notícias suas – era assim
que Mendonça me tratava: de professor. Nunca cheguei a ser professor dele,
apenas nos esbarramos pelas veredas da vida e nos tornamos amigos.
_Estou
bem Mendonça. Escapando, como dizem. Vejo que você está mais jovial, Parece-me
até um pouco eufórico.
_
Verdade, professor. Vim buscar minhas alianças. Vou ficar noivo na próxima
semana e já vou marcar a data do casamento para o mais breve possível – e
mostrou uma caixinha em veludo azul, abriu e lá estavam aqueles dois aros
dourados para justificar todo aquele entusiasmo.
E lá veio ele com conversa
me pedindo para falar de casamento. Mas cá entre nós, isso é coisa que se peça
tomando chope? Mas já que ele pediu...
_É
o seguinte, Mendonça: casamento é algo que facilita a noite, mas complica o
dia.
-
Como assim? – quis saber ele.
-Preciso
desenhar, Mendonça? – ele pensou, sorriu, e disse que eu não precisava
desenhar. Então continuei. – No começo é muito bom. A paixão está acesa e é um
tal de meu amor pra cá, meu bem pra lá, gentilezas em cada gesto, em cada
atitude. Um ano depois meu amigo...
_
Como assim?
_
A briga começa porque cada um aperta o tubo de pasta de dente de um jeito e ela
naturalmente diz que o dela é que o certo. E toalha molhada na cama? Errar a pontaria
na hora de fazer xixi, você vai ver só a bronca. Desarrumar a gaveta na hora de
procurar um par de meias ou uma cueca é para meia hora de reclamação. Nem
apareça suado depois de bater uma pelada com os amigos e lá vem ela com o “nem
chegue perto de mim”. E acrescenta: “ponha esse tênis fedido lá na lavanderia,
aproveita e coloque essa meia catinguenta na máquina de lavar”.
_
Está exagerando!
_Estou?
Meu amigo, dois casamentos e descobri que mulheres são todas iguais no quesito
de aporrinhar o marido. Você sai de bermuda, chinelo de dedo ela reclama: “vão
dizer que não cuido de você”. Se sai bem vestido, lá vem ela: “vai encontrar
com quem?” E vou dizer mais, se for ciumenta... Nem na ditadura havia tanta
censura. Vai vasculhar seu celular, cheirar sua camisa, etc, etc.
_
Mas tem os filhos
_
Uma graça enquanto estão na maternidade. Depois... Eles começam a vida
chorando. E como choram. Vai ver só que delícia um choro das duas às seis da
manhã. Depois vão crescendo e dão outro tipo de trabalho. Comprar tênis, pagar
colégio bom e ele irá querer celular do último tipo. Vai ter que trabalhar
muito Mendonça. E o que é pior, os
instintos da mulher mudam depois que ela se torna mãe. Antes da gravidez, o
instinto era o de dar continuidade à espécie, aqueles desejos que devem estar
seduzindo você. Depois, é o de proteger a cria. Aí ela esquece por um bom tempo que você existe, só
pensa no pirralho. Vai ficar literalmente na mão.
_
Elas estão chegando, minha sogra está junto. Veja lá o que vai dizer, hein –
antes que elas chegassem cochichei nos ouvidos dele:
_
Está vendo a sua sogra? Sua mulher vai ficar daquele jeito.
Nesses dias fiquei sabendo
que ele desfez o compromisso. Por que será?
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