Quem tem nome como o de Pedro Cachorra, não pode ter vida fácil.
Pedro Cachorra Barbosa, mais precisamente. Os amigos podem dar um alívio e
chamá-lo de Pê Cê Bê, o que suaviza um pouco. Sem querer fazer alguma alusão
aqui a essa infeliz escolha, gente com esse nome vai sofrer como cão sem dono.
Um pai que registra o filho com um nome desse não tem Jesus no coração. Não
pode ter.
Mas adianto que Pedro
Cachorra existe e foi uma luta para registrá-lo. O tabelião botou areia, mas o
pai tinha argumentos e que argumentos. A batalha no cartório foi assim:
_ Como não registrar? Qual é o problema?
_ Um nome como esse vai constranger a
criança na escola. Vai sofrer o resto da vida. O senhor já pensou nisso?
_ Já, mas não vejo problema algum.
Estudei matemática no livro de Manuel Jairo Bezerra. Houve uma artista de
televisão chamada Márcia Cabrita, tenho um amigo chamado Justino Cobra. Não
tivemos um escritor, o Graça Aranha? E olha que cobra e aranha são bichos
peçonhentos.
_ Sei
disso, mas colocar cachorra? Já pensou?
_ Se
fosse Pedro Minhoca, o senhor registrava?
_
Também não.
_ Cobra
pode, mas minhoca não pode. Não dá para entender. Então me explica qual bicho
pode, qual bicho não pode.
_ Não é
questão desse ou daquele bicho. Acontece que há nomes consagrados pelo uso,
outros não. Ninguém tem esse “cachorra” no nome, só isso!
_
Lembrei de um amigo cujo sobrenome é Pulga.
_ Pode
ter algum por aí sim, mas cachorra eu não aceito.
_ O
senhor aceitaria Pedro Percevejo de Oliveira?
_ Claro
que não.
_ Tá
aí. Pulga pode e percevejo não pode. Não dá para entender mesmo. Já soube de
gente com o sobrenome Dourado e conheço peixe com esse nome, mas já imagino que
piranha não pode. Ou seja, tem peixe que pode e tem peixe que não pode.Tem
gente até com nome de dois bichos, aquele jurado de televisão não se chama Leão
Lobo? Vá entender...
_ São
as regras, meu amigo. O mundo precisa de regras ou vira bagunça.
_ Então, me explica: se meu filho se chamar Pedro Cachorra, o mundo vai ficar pior só por causa disso?
_ Ainda
não me convenceu.
_
Conheço um Chico Pinto que é jornalista, mas já vi que João Frango não dá para
ser. E veja, frango é só um pinto que cresceu.
_ Não
adianta continuar, Cachorra não registro.
_ Meu
amigo, o senhor está sem argumentos. Por falar em ave, conheceu aquele craque o
Paulo Roberto Falcão? Então Falcão pode, mas bem-te-vi não ia ter jeito. E
falando de futebol e aves, temos o Pato, temos o Ganso.
_ Pode
falar o que quiser, Cachorra não registro.
_Mas
então, escuta. Conheço o João Cordeiro, mas João Veado o senhor não deixa.
Veado e cordeiro são bichos muito parecidos, ou não são?
_ Já
disse, meu amigo, nome Cachorra não vai existir no meu cartório e pronto!
_ Mas
eu vou insistir. Tem gente com nome de Formiga, ou não tem? Nunca vi um Cupim,
porque os bonitões do cartório não registram. Só me responde uma coisa.
_ Diz.
_
Coelho pode?
_ Pode
_ E
Lebre? Conheci um Lebrão.
_ Se
conheceu é porque pode.
_ Mas
João Porquinho da Índia nem pensar.
_ Claro
que não.
_
Voltando às aves, já vi gente que se chamava Pavão.
_ E
daí?
_ E daí
que o senhor está de brincadeira. Pavão o senhor registra, mas duvido que
registre saracura.
_ Não
registro mesmo. Nem saracura e nem cachorra.
_ Se eu
colocar Pedro Camelo de Oliveira o senhor registra?
_ Claro
que sim.
_ E
Pedro Dromedário de Oliveira o senhor aceita? Camelo e dromedário são bichos
muito parecidos.
_ Vamos fazer o seguinte: vou registrar como o senhor deseja. Pobre menino! Só não quero ser o culpado pelo sofrimento dele. Tenho a consciência limpa de que fiz tudo para evitar. Depois que eu entregar a certidão de nascimento, me faz um favor?
_ Qual?
_
Desaparece da minha frente.
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