sexta-feira, 3 de abril de 2020

De como Pedro Cachorra ganhou esse nome


Quem tem nome como o de Pedro Cachorra, não pode ter vida fácil. Pedro Cachorra Barbosa, mais precisamente. Os amigos podem dar um alívio e chamá-lo de Pê Cê Bê, o que suaviza um pouco. Sem querer fazer alguma alusão aqui a essa infeliz escolha, gente com esse nome vai sofrer como cão sem dono. Um pai que registra o filho com um nome desse não tem Jesus no coração. Não pode ter.
 Mas adianto que Pedro Cachorra existe e foi uma luta para registrá-lo. O tabelião botou areia, mas o pai tinha argumentos e que argumentos. A batalha no cartório foi assim:
 _ Como não registrar? Qual é o problema?
          _ Um nome como esse vai constranger a criança na escola. Vai sofrer o resto da vida. O senhor já pensou nisso?
         _ Já, mas não vejo problema algum. Estudei matemática no livro de Manuel Jairo Bezerra. Houve uma artista de televisão chamada Márcia Cabrita, tenho um amigo chamado Justino Cobra. Não tivemos um escritor, o Graça Aranha? E olha que cobra e aranha são bichos peçonhentos.
_ Sei disso, mas colocar cachorra? Já pensou?
_ Se fosse Pedro Minhoca, o senhor registrava?
_ Também não.
_ Cobra pode, mas minhoca não pode. Não dá para entender. Então me explica qual bicho pode, qual bicho não pode.
_ Não é questão desse ou daquele bicho. Acontece que há nomes consagrados pelo uso, outros não. Ninguém tem esse “cachorra” no nome, só isso!
_ Lembrei de um amigo cujo sobrenome é Pulga.
_ Pode ter algum por aí sim, mas cachorra eu não aceito.
_ O senhor aceitaria Pedro Percevejo de Oliveira?
_ Claro que não.
_ Tá aí. Pulga pode e percevejo não pode. Não dá para entender mesmo. Já soube de gente com o sobrenome Dourado e conheço peixe com esse nome, mas já imagino que piranha não pode. Ou seja, tem peixe que pode e tem peixe que não pode.Tem gente até com nome de dois bichos, aquele jurado de televisão não se chama Leão Lobo? Vá entender...
_ São as regras, meu amigo. O mundo precisa de regras ou vira bagunça.

         _ Então, me explica: se meu filho se chamar Pedro Cachorra, o mundo vai ficar pior só por causa disso?
_ Ainda não me convenceu.
_ Conheço um Chico Pinto que é jornalista, mas já vi que João Frango não dá para ser. E veja, frango é só um pinto que cresceu.
_ Não adianta continuar, Cachorra não registro.
_ Meu amigo, o senhor está sem argumentos. Por falar em ave, conheceu aquele craque o Paulo Roberto Falcão? Então Falcão pode, mas bem-te-vi não ia ter jeito. E falando de futebol e aves, temos o Pato, temos o Ganso.
_ Pode falar o que quiser, Cachorra não registro.
_Mas então, escuta. Conheço o João Cordeiro, mas João Veado o senhor não deixa. Veado e cordeiro são bichos muito parecidos, ou não são?
_ Já disse, meu amigo, nome Cachorra não vai existir no meu cartório e pronto!
_ Mas eu vou insistir. Tem gente com nome de Formiga, ou não tem? Nunca vi um Cupim, porque os bonitões do cartório não registram. Só me responde uma coisa.
_ Diz.
_ Coelho pode?
_ Pode
_ E Lebre? Conheci um Lebrão.
_ Se conheceu é porque pode.
_ Mas João Porquinho da Índia nem pensar.
_ Claro que não.
_ Voltando às aves, já vi gente que se chamava Pavão.
_ E daí?
_ E daí que o senhor está de brincadeira. Pavão o senhor registra, mas duvido que registre saracura.
_ Não registro mesmo. Nem saracura e nem cachorra.
_ Se eu colocar Pedro Camelo de Oliveira o senhor registra?
_ Claro que sim.
_ E Pedro Dromedário de Oliveira o senhor aceita? Camelo e dromedário são bichos muito parecidos.

          _ Vamos fazer o seguinte: vou registrar como o senhor deseja. Pobre menino! Só não quero ser o culpado pelo sofrimento dele. Tenho a consciência limpa de que fiz tudo para evitar. Depois que eu entregar a certidão de nascimento, me faz um favor?
_ Qual?
_ Desaparece da minha frente.


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