sexta-feira, 3 de abril de 2020

Dona Nonoca e a vida dos outros


O nome dela era Albertina. Nonoca ninguém sabe de onde e como surgiu. Assim ficou até domingo passado quando foi prestar suas contas com Deus. Bateu com as dez sem ninguém esperar, de repente, aos oitenta e alguma coisa. Cremadíssima na tardinha de segunda-feira, pois, por decisão de família não foi para a cidade dos pés juntos. Penso que os parentes tiveram receio de que Dona Nonoca pudesse estar eventualmente em estado de catalepsia e despertasse sem mais e nem menos. Por garantia de que aquela viagem da velhinha não tivesse retorno, preferiram o forno. Buraco não era garantia diante das artimanhas daquela ardilosa anciã.
Estive no velório. Assim de gente. Acho mesmo que muitos ali só queriam ter a certeza que Dona Nonoca não respirava mais. Lágrimas? Não vi uma sequer. Nem de parentes próximos ou quaisquer outras gentes. Viva, diziam que quando morresse seriam necessários dois caixões para a defunta em questão. Um para a criatura propriamente dita e um outro, maiorzinho, só para a língua. Não sei que arranjo fizeram os artistas da funerária, mas coube tudo num só. Pelo menos foi o que constatei.
Já que ela passou décadas bisbilhotando a vida alheia, nada há de deselegante que agora eu me ocupe um pouco com a dela. Para começar compartilho com a opinião unânime dos que compareceram às exéquias de Dona Albertina de Sá Carneiro Valadares e Silva: já foi tarde!
O estimado leitor e a leitora que goza da mesma estima de minha parte, podem julgar que conheceram ao longo da vida alguma fuxiqueira. Que nada! Pensam assim porque não conheceram Dona Nonoca, peagadê em mexerico, fofoca, bisbilhotice, enxerimento. Enfim, coisas dessa qualidade. Vejam só:
       Quando alguém casava, ela marcava a data no calendário e contava os meses até o primeiro choro de pirralho. Se em sua estatística não batessem os nove meses protocolares, lá vinham os comentários: “comeram o lanche antes do recreio. Dava para desconfiar que aquela uma não casou moça. Vivia de assanhamentos com tudo que é namorado que teve”. Afirmação que nos permite concluir que fazia tempo que “aquela uma” era vigiada.
          Pobre de minhas vizinhas: “Dona Celeste, Cida me contou que a senhora emprestou dinheiro dela para pagar as contas de água e de luz. Tava com três meses de atraso”. Pronto Dona Cida e Dona Celeste ficaram intrigadas para sempre.
 O filho de seu, Juvêncio, o Edgar descoloriu o cabelo. Pauta das melhores para a velha Nonoca: “sei não, o Dgarzinho não me engana, esse rapaz não sabe se é barro ou se é tijolo”.
De sua janela Dona Nonoca fiscalizava a rua. Pois acreditem, numa dessas manhãs ao passar pelo seu portão de caminho à padaria tive que ouvir: “professor, o senhor precisa deixar de comer frituras. Faz mal pro coração”. Estranhei, mas depois me veio a lembrança que na véspera colocara duas garrafas vazias de óleo de soja no meu lixo. Dá para ver onde Dona Nonoca foi bisbilhotar?
              Aquela revista “Caras”, Dona Nonoca não só lia, estudava! Sabia no mundo das celebridades que estava pegando quem. Adorava um telefone. Seu Ataíde comprou Fiat novinho em folha. Foi só ela ver e já ligou para Dora Rosilda que não ia com os bofes de Dona Gracinha, mulher de Seu Ataíde: “ aquilo é um duro. Vai pagar o carro em cinqüenta vezes, não compra nada à vista. Se virar ele de cabeça para baixo, cai um monte de carnês. Tudo em atraso”. Tinha mania de chamar suas vítimas de “aquilo”.
Todos ali, sabíamos que Dona Nonoca era cobra de muita peçonha. Ritinha, vizinha de casa ao lado, moça velha que a vida jogara para escanteio foi tirar satisfação: “o que a senhora anda dizendo de mim?”. “Disse que você é estressada porque nunca deitou com homem”. “E a senhora deitou?”. Não deitei porque não quis”. Não caberia nesta prestigiosa gazeta os feitos de Dona Nonoca. Fiquemos por aqui. Minha raiva?
Gaspar que é porteiro no prédio da esquina me contou. Vinha ela da quitanda e ao passar pelo edifício comentou a meu respeito com o zelador: “não sei como ele está conseguindo se sentar. Deve estar com o traseiro doendo. Levou um pé na bunda daqueles”. Eu havia terminado um relacionamento na semana anterior. Não sei como Dona Nonoca ficou sabendo, mas teve que me alfinetar.
Na segunda-feira passada fui ao crematório e só saí quando vi o pote com as cinzas da mexeriqueira. Senti um alívio. No primeiro bar tomei a melhor garrafa de cerveja de minha vida e brindei: vá cuidar da vida do satanás!
Pobre do diabo. Nem sabe o que espera por ele.

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