quarta-feira, 30 de setembro de 2020

 

                      CHIMBICA ESTÁ INDO EMBORA....

         Cauê, meu filho, que tão precocemente fez aquela viagem fora do combinado, certa vez me perguntou quando ainda pequenino: “pai, por que existe gente que não tem cachorro?”.

         Não pude responder aquela indagação que me pareceu tão intrigante. Desde que me casei (foram só duas vezes), nunca deixei de tê-los. Passados tantos anos  essa questão ainda me intriga. Como pode? Não sei meu filho. Por onde é que esteja você, para muito além desse mundo, aceite essas escusas do seu pai por deixar esse questionamento sem resposta. Mas falemos deles, os cachorros, que encheram de alegria nossas vidas.

         Minha primeira parceria com essas criaturas de quatro patas chamava-se Laika. Vira-lata muito simpática e buliçosa. Eu tinha seis anos quando encontrei aquela coisinha perdida em frente a minha casa. Recolhi a pobre a despeito dos protestos de minha mãe. Laika morreu quando um enorme cão hidrófobo entrou pelo nosso quintal e tentou atacar minha irmã caçula que estava brincando na varanda. Defendeu Norminha com a fúria de uma leoa, mas morreu em conseqüência disso. Minha irmã saiu ilesa desse episódio. A partir daí, só pude ter cães quando fui dono de meu nariz; ou seja, quando casei.

         Você não chegou a conhecer Argos (Janaína e Ariadne, sim) aquele boxer cujo nome fui buscar na mitologia grega, pois achei muito poético um cachorro ser capaz de reconhecer seu dono – Odisseu - depois deste retornar de Troia passado tanto tempo. Queria ter um animal tão apegado a mim como esse. Tive. Por isso o batizei com o nome da embarcação que o herói grego navegou pelo Egeu no seu retorno ao lar.

         Preta, você conheceu, uma mestiça que tinha cinqüenta por cento de sangue pastor alemão e a outra metade, sei lá de que procedência.  Vigilante, carinhosa, muitas vezes você caminhou com ela pela praia. Foi triste quando a bichinha partiu. Sempre é. Éramos muito apegados a ela. Sempre somos.

         Janes, era nossa Janes Joplin, nossa cachorra-roqueira. Quem a batizou de Janes Joplin foi Janaína, mas ficou só Janes. Essa, pura de raça como Rin-tin-tim, pastor alemão da mais nobre procedência. Meiga como uma gueixa, fazia dupla com a espevitada Samanta, uma pastor belga muito selerepe. Marcaram minha vida, a sua e a de seus irmãos.

         Se não me falha a memória você conheceu Boris aquele boxer invocado que dei de presente para seu irmão, Iago. Havia muito chamego entre eles dois. Seu irmão já está advogando, namorando firme com Gabi. Qualquer hora dessas começa distribuir convites de casamento. Já imaginou o presente que vou dar a ele?

         E Mel? Doze anos conosco. Essa você conheceu. Uma poodle  (os dessa raça são muito inteligentes) muito sabida e protetora.  Nessa minha vida atribulada durante esses anos morou conosco em Campinas, Bauru, Natal e João Pessoa. Partiu no mesmo ano que Gauss, em 2012. Foi um ano muito complicado em minha vida e ainda acrescido dessas duas perdas.

         Gauss, um boxer sabido que só. Companheirão, vigilante, doce com os amigos, invocado com os desconhecidos. A partida deles, Gauss e Mel, foi como a de parente querido. Muito triste.

         Paxá, o cão de Gabriela, sua irmã. Um labrador traquinas que destruiu jardins, comeu móveis...Mas como era carinhoso. Foi provavelmente um problema cardíaco que o levou precocemente no ano passado. Gabriela sofreu muito, era seu bicho quase gente, que não desgrudava dela, carne e unha. Também ficamos  mal, eu e Ana. Como não ficar?

         No lugar de Paxá, veio o Fred, da mesma raça, está com nove meses e estamos tentando por esse “rapaz” na trilha dos bons caminhos. Parece que estamos conseguindo.

         Agora, Chimbica (mulher e filha chamam-na, Nina).

         Chimbica (é uma beagle) está conosco desde 2010. Fez dez anos. Para se comparar com a idade dos humanos é só multiplicar por 7. Portanto, é uma senhora idosa no alto de suas sete décadas de vida. Mas a pobrezinha passou por duas cirurgias para eliminar um câncer. Não deu certo, a praga dessa doença voltou. Está fraquinha, come pouco, dorme muito. Nós aqui estamos cientes, a vida dessa criaturinha está se esvaindo como uma velinha que vai se apagando. Basta um ventinho mais forte e pronto. Tudo se acaba. Enquanto isso, vamos tentando aliviar qualquer desconforto. Remédios e muita atenção para com essa senhorinha. Ela parece estar ciente dessa aritmética perversa que vai subtraindo dias de sua biografia.

         Mas Chimbica está cumprindo sua missão, a missão que todos os cães têm: ser fiel e companheiro. Enquanto escrevo esse relato, ela está aqui com a  cabeça pousada sobre meus pés, como sempre faz enquanto escrevo Vez ou outra  me olha com ternura e sinto pelo seu olhar que está me dizendo: “amigão, estou aqui. Estarei com você até o fim.”

         Então, meu filho querido, talvez você possa entender porque deixei sem resposta aquela sua pergunta: “pai, por que existe gente que não tem cachorro?”.   

        

terça-feira, 22 de setembro de 2020

SIMPATIA É QUASE AMOR

 

A minha casa fica lá detrás do mundo

Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar

O pensamento parece uma coisa à toa

Mas como a gente voa quando começa a pensar. Lupicínio Rodrigues

Meu filho achou melhor eu vir morar com ele. Separou o maior quarto do seu apartamento, uma suíte de frente para essa pracinha simpática, cheia de árvores e gente

. Colocou nesse cômodo, estante, escrivaninha, televisão, uma cama que mesmo sendo de solteiro é espaçosa e confortável, trouxe meu computador e todos os meus livros. E o que é mais importante, não se esqueceu do meu bandolim e todas as partituras. É com aquelas oito cordas que converso com minhas saudades.

Mas voltando ao meu filho, Olavo sempre foi assim, cuidadoso comigo. Ficava preocupado. Eu sozinho lá no sítio. O caseiro a mais de duzentos metros de distância, na casinha que eu havia mandado construir para ele. Mas. se à noite eu precisasse, ele não estaria por perto. Relutei em vir, mas havia os netos, Felipe e André. O primeiro com seis e o segundo com quase cinco e desde que nasceram fizeram minha alegria. Acabei aceitando essa proposta que vinha com tintas de intimação. A nora, Maria Fernanda, a Fê, era assim com Gracinha e muito gentil comigo. Sabia que ia ser bem acolhido. E fui.

Nem contei. Gracinha foi minha mulher por quarenta e dois anos. Uma vida. Mas o Homem lá de cima resolveu levá-la antes do combinado. Que doença maldita é esse tal de câncer. Em três meses fez minha mulher definhar. Que padecimento. Só morfina fazia a coitadinha parar de chorar. Então, quando ela se foi, tive que aceitar, foi um descanso para a pobre.

Ainda fiquei uns meses lá no sítio. Dei trato gentil ao jardim de Gracinha e a tudo que me fizesse dela lembrar. O jardim? Fiz o que pude para manter aquela boniteza. Como ela gostava daquele pedacinho de mundo. Conversava com as plantas. Dona Sinhá era sua roseira preferida. Precisavam vê-la de conversa: hoje vou ter que podar a senhora, é lua nova, vai dar brotação vigorosa e vai florescer mais linda que nunca. Acho mesmo que Dona Sinhá a ouvia e era muito obediente, pois tempinho depois  brotavam novos galhos e a seguir os botões anunciavam a premonição de Gracinha. Assim era com as prímulas, as onze horas, as flores de maio, as azaléias. E com as hortências, então?! Todas eram Marias, a Das Dores, a Dos Remédios, a Da Anunciação  e por aí afora. Tratava-as como gente. Hoje fui ver Do Rosário e não achei que estava bem. Deve ter sido esse sol de queimar lagarto.  Então, Do Rosário ganhava rega e adubo nas raízes.

Cedinho começava sua lida. Cada pé de pau, cada árvore, uma orquídea presa ao tronco. Não creio que tivesse menos de cinqüenta no entorno de nossa casa. Gracinha cobrava minha atenção: Norminha floriu, precisa ver como está mimosa. E eu ia ver Norminha com seus cachos dourados. Seu Alcides nosso gato angorá e Doutor Freud nosso boxer tigrado e parrudo eram o xodó de minha mulher. Quando vim para o apartamento de Olavo tive que me desfazer deles. Que separação dolorida. Doutor Tolentino, proprietário do sítio ao lado, acolheu “os meninos” (era assim que Gracinha se referia a essa dupla serelepe). Sei que estão bem na casa desse meu amigo. Só espero que não sintam de mim a saudade que sinto deles, dói muito.

Quando entendi que vir para a casa de Olavo era uma decisão sem retorno, adoeci, Tive febre de quarenta e dois graus, cheguei a perder a consciência. Aliás, foi Tolentino quem me socorreu. Percebeu a minha ausência e ligou para Olavo. Mudaram-me para o apartamento naquele mesmo dia. Gostava daquele sitiozinho. Gostava? Muito mais que isso. Era um mundinho que eu e Gracinha escolhemos para o outono de nossas vidas.

 Na porteira do sítio o nome da propriedade. Dois mourões de mais de dois metros e meio fincados, um de cada lado da entrada e  nas extremidades de cima desses lenhos, um pedaço de corrente segurando uma placa de madeira rústica com o nome ali entalhado: “SÍTIO SIMPATIA É QUASE AMOR”. Gracinha se inspirara no nome de um bloco de carnaval do Rio de Janeiro. Mas, nossa propriedade era conhecida mesmo como SÍTIO SIMPATIA por uns ou SÍTIO DE DONA GRACINHA  por outros. Não sei qual desses dois nomes acho mais mimoso.

Mas enfim, faz mais de um ano que estou na casa de Lavinho. Ele parece feliz com minha presença. Fê também e é toda agrados comigo. Ainda me lembro que quando ficou grávida de Felipe veio contar para mim. Estava assustada. Ela e Olavo ainda namoravam, não tinham terminado a faculdade. Chamei Gracinha que acolheu Fernanda, ouviu a história da menina com muita paciência e ternura e disse: já que aconteceu vamos ver o que podemos fazer. Em seguida deu uma reprimenda em Olavo. Quando viu Fê chorando perguntou: chorando por quê? Fernanda em soluços disse que não sabia como ia contar para o pai dela e concluiu com pensamentos trágicos: meu pai vai me matar. Foi quando Gracinha se levantou e disse: vem cá menina vou com você falar o Arruda (era o pai de Fê). E não deixou Olavo fora do estorvo. O senhor vem também, seu irresponsável. Foram os três. Gracinha achou melhor eu ficar.

Arruda que era mais bravo do que onça com dor de dente, mas amoleceu com a conversa de Gracinha. Aliás, ficou com os olhos cheios de lágrimas (segundo o que minha mulher contou depois) e disse ao final: não era isso que eu queria para você, Fê. Mas agora é tocar a vida para frente. Só não quero ver minha filha falada. Então vamos organizar esse casamento. Olavo tinha vinte e um anos e Fernanda vinte. Casaram um mês depois. Arruda, hoje em dia, não faz nada na vida sem consultar Olavo e Dona Glória é toda chamego com meu filho. Dona Glória nem preciso apresentar, vocês já desconfiam quem seja.

Vez outra Arruda aparece por aqui e vamos dar uma caminhada em volta da pracinha aqui em frente. Ele é um bom sujeito e acho que aparece mesmo para me fazer companhia. Conversamos sobre muitas coisas quando sentamos naquele banco sob a sombra de uma frondosa sibipiruna. Torcemos pelo mesmo time que não anda lá essas coisas, mas que nos deu muita alegria em nossos tempos de menino. Arruda é saudosista. Tá lembrado? Gylmar, Ismael, Mauro, Dalmo e Haroldo; Lima e Mengalvio; Dorval, Coutinho, Almir e Pepe. Que virada no Maracanã!. Estávamos perdendo de dois a zero e viramos para quatro a dois. Nem Pelé e nem Zito estavam naquele jogo. Depois na “negra”, vencemos de um a zero com gol de Dalmo, de pênalti. Tá lembrado? Claro que eu estava, só não tinha a memória do Arruda.

Algumas vezes levamos o tabuleiro de xadrez e aquela sombra nos acolhe em nossos combates. Na maioria das vezes eu venço. Meu oponente é muito distraído e perde o foco durante uma partida. Aproveito a distração.

Se chove, me liga. Pergunta da Fê, do Olavo e das crianças. Agradeço muito a atenção deles. Digo deles, porque Dona Glorinha vira e mexe me convida para uma bacalhoada.

As crianças quando estão em casa me tomam o tempo. É um tal de vô vem cá, vô faz isso, vô faz aquilo. Leio histórias para eles e levo Felipe na escolinha de futsal. Fica todo orgulhoso quando aplaudo um drible dele. O menino tem jeito.

Gostam de me ver ao bandolim. Olavo às vezes abre umas cervejas e chama uns amigos para me verem tocar. Gosto de protagonizar esses momentos.

Ah, meus amigos, quantas vezes toquei só para Gracinha.

É assim meus caros que vou vivendo, sem aquela metade que arrancaram de mim. Tenho os dias cheios, mas as noites são vazias. É difícil pegar no sono. Ficamos no quarto, eu e  meu bandolim. Sempre me vem a imagem de Gracinha no jardim regando as plantas. Tento ser firme nessas horas. Mas não há como. As lágrimas me chegam abundantes como fossem capazes de lavar minhas saudades. Ontem mesmo chorei muito. Foi só eu pegar a palheta, afinar as cordas que me veio a imagem de nossa casinha lá no sítio quando eu fazia meu pequeno concerto só para ela me escutar e aplaudir.  Como o pensamento voa nessas horas abraçado às nossas melhores recordações. Aparecem como num filme em cinemascope. Ontem, fechei os olhos e vi Gracinha se equilibrando na escada, me ajudando a pendurar aquela placa na porteira do nosso sítio, aquele pedaço de tábua na qual ela mesma entalhou.   

É isso meus amigos, vou levando a vida do jeito que posso. Gracinha tinha razão, simpatia é quase amor, mas saudade, o que é?

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

QUERO MAIS QUE ELE EXPLODA (Roberta)

 

                      

                        

Se acaso você chegasse
No meu chatô encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem de trocar a nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou
. Lupicínio Rodrigues

         Rosevaldo sempre foi amigo do peito, desde o tempo das bolas de gude, do de colocar pipa no céu em tardes de vento nos frios de julho. Camaradagem que começou na quarta série do grupo escolar sob a batuta de Dona Lia, brava que só.

Casas só meia quadra de lonjura uma da outra, fazíamos juntos o dever de escola para darmos conta da aritmética de Dona Lia e de outras pendengas que nossa professora cobrava com muito rigor e autoridade no dia seguinte. No sábado, vestíamos a camisa amarela de listas negras do  quadro infantil do nosso querido Botafoguinho de Vila Esperança, esquadrão de muito respeito  no bairro, cujo time principal fora duas vezes campeão do torneio amador de nossa cidade. Eu na meia direita e ele na ponta do mesmo lado, sonhávamos, quando crescêssemos, chegar ao quadro principal, quem sabe um dia até à Seleção. Claro que essas quimeras pouco duraram, uns três anos mais, talvez. Depois surgiram outras presunções, tanto para mim como para Valdinho e nossa bola foi sobrar para sempre na baliza de escanteio.

Fizemos juntos o Curso de Admissão ao Ginásio com Dona Geny, uma gorda sessentona que ganhara fama pela eficiência, esta comprovada pelos índices altos de aprovação dos seus pupilos. Naqueles tempos, o Admissão era uma edição formato brochura do vestibular que iríamos enfrentar sete anos à frente. Aprovados com louvor, chegamos juntos ao ginásio. Continuamos dedicando nossas tardes às nossas obrigações. Umas três horas diárias com a mão no lápis. Algumas vezes em minha casa. Outras na dele. Na casa de Valdinho, Dona Guiomar fazia gosto em nos ver pegando firme em nossas responsabilidades e no meio da tarde nos servia bolo de fubá com chá Mate Leão. Muito gostoso aquele bolo de Dona Guiomar com tempero de erva-doce. Já em casa, quando muito cafezinho preto e umas bolachinhas. Durante aqueles quatro anos, nossas cadernetas só tinham notas em azul, nunca pegamos uma segunda época. Segunda época? Eram assim chamadas as provas de fevereiro para quem não fosse aprovado durante o ano letivo anterior. Era a última chance e no máximo em três matérias, em caso contrário reprovação e não adiantava reclamar nem para o bispo. Nem havia também esse mi-mi-mi de conselho de classe.

 Naqueles anos tivemos nossas namoradinhas, tipo pegar na mão nas matinês de domingo. Nada de avanços significativos, pelo menos de minha parte.  Uma vez Valdinho me perguntou se eu já pegara nos peitinhos de Dolores, minha namoradinha da vez. Achei aquilo um absurdo. Então, tasquei a indagação de volta e perguntei: e você já pegou no peitão da Salete? Claro que sim, já até beijei ela na boca, completou ele com as suas ousadias e prováveis mentiras. Estranhei aquela quebra na hierarquia das carícias. Pelo jeito que meu amigo falava, primeiro pegava-se nos peitos e depois se beijava na boca e não o contrário como eu sempre imaginara. Ele também não fez cara de bons amigos quando eu disse que Salete tinha peitão, mas ficou por isso mesmo. Tínhamos quantos anos na época? Uns treze, a do peitinho e a do peitão também. Tivemos outros namoricos, mas nunca mais diferenciamos as meninas por suas anatomias.

Terminados os quatro anos de ginásio, fomos encarar  três outros anos de científico. Para essa etapa eram duas salas em nosso colégio, a da turma de engenharia (não se falava turma de exatas) onde eu fiquei e a de medicina (também não se falava turma de biológicas) onde ficou Valdinho. Os currículos eram os mesmos, exceção de um pormenor; pois, na minha turma estudava-se desenho (desenho geométrico e geometria descritiva) e na do meu amigo, biologia. Digo isso porque continuamos juntos nossas rotinas de estudo. Tomamos nossas primeiras cervejas e a tal primeira vez de ambos, aconteceu no mesmo dia, melhor dizendo, na mesma tarde em casa de Dona Diana, uma conhecida cafetina da cidade, que no período vespertino fazia a generosidade de conceder abatimento para os iniciantes. Ainda me lembro, saímos de lá muito posudos depois daquele rito de passagem.

Época boa dos bailinhos para dançar agarradinho músicas italianas., namoros com mais atrevimentos. Nesses tempos namorei por quase dois anos Roberta, colega de turma de Valdinho. Ah, esses bailinhos! Lá chamávamos de “brincadeira dançante” e gostava de dançar de rosto colado ao dela ouvindo a voz de Peppino di Capri cantando aquela música que tinha o nome dela. Hoje passados tantos anos, ainda me lembro da letra todinha. Querem ver? Aí vai:

Lo sai non è vero/Che non ti voglio più/Lo so non mi credi/Non hai fiducia in me/Roberta, ascoltami/Ritorna, ancor' ti prego/Con te, ogni instante/Era felicita/Ma io non capivo/Non t'ho saputo amar/Roberta, perdonami/Ritorna ancor', vicino a me/Roberta, ascoltami/Ritorna, ancor'/ti prego/Con te ogni instante/Era felicita.

         Enquanto namorei Roberta, Valdinho sassaricou uns tempos com Angelina, outros com Flora Regina e ainda com Maria Aída que era a garota mais bonita do colégio. Valdinho era um danado.

         Sempre íamos aos domingos com as namoradas na sessão das sete. Namorar no cinema era tudo de bom. Quando não estávamos nessas lidas, vez ou outra um futebol sábado à tarde e domingo cedo piscina na Associação Atlética. O que posso dizer desses tempos? Bons demais.

Quando terminamos o científico, Valdinho foi fazer cursinho em São Paulo. Maria Aída passou para direito e se tornou anos depois a promotora mais bonita de nossa cidade. Flora Regina casou, engordou e teve filhos. De Angelina nunca mais soube. Eu passei no vestibular e fui fazer engenharia por aqui mesmo. E Roberta? Foi fazer medicina em São Paulo. Antes disso, em nosso baile de formatura terminamos o namoro. Por quê? Perguntou Roberta entre um soluço e outro. Não vai dar certo, você lá e eu aqui, argumentei. A gente se vê nos fins de semana, num eu venho, noutro você vai, ainda ponderou ela. Fui firme em minha decisão. Confesso que gostava muito dela, muito mesmo. Nem disse, Roberta era muito bonita. Na verdade rolou ciúme de minha parte. Não tinha maturidade para um namoro naquelas condições. Sofri? Sim, e como. Ela mais que eu, mas achei melhor assim.

 Depois disso, eu via Valdinho raramente, os interesses eram outros, mas amizade não se desfez. Quando aparecia por aqui nos fins de semana tomávamos nossa cerveja e relembrávamos nossas peripécias de adolescentes. Um ano depois ele me chegou com a boa nova, aprovado para medicina na USP. Já não disse que Valdinho era um danado? Tomamos todas para comemorar.

A faculdade dele e a minha não facilitavam nossos encontros. Ele lá com seus ossos e com minhas integrais, éramos escravos das provas e dos comprimidos de “Reativan” que nos deixavam acesos noites após noites. Tempo de sobra, quase nenhum. Passamos a nos ver pouco e assim foi por uns três anos. Nesse tempo conheci e namorei Narinha. Precisavam ver que beleza exótica a de Narinha. Tinha olhos d’água, cabelos cor de cobre e um pouquinho de sardas espalhada com muito encanto e parcimônia naquele rosto de sobrar encantos. Posso dizer que me apaixonei por aquela ruivinha delicada e inteligente.

Um belo dia, Valdinho me telefonou e perguntou como é que eu ia indo na vida, se eu estava namorando e com quem, como  levava meu curso, etc, etc, etc. Depois de jogar muita conversa fora sugeriu que nos encontrássemos num fim de semana. E que eu levasse minha namorada que eles gostariam muito de conhecer. Eles? Sim, eu e minha namorada, disse ele. E ainda completou: você vai ter uma surpresa. Marcamos a data e a pizzaria. Seria num sábado em que a véspera era feriado permitindo-nos um pequeno recesso em nossas atividades acadêmicas.

No dia, ou melhor, na noite que nos encontramos, que surpresa! Chegamos primeiro, eu e Narinha. Escolhemos uma mesa e fomos pedindo uma garrafa de vinho para darmos um tempinho enquanto Valdinho não chegava. Já era de se esperar, pontualidade não era o forte dele. Mas dessa vez nem demorou tanto. Nem havíamos terminado a primeira taça quando ele apareceu todo pimpão com a namorada a tira-colo. E quem era a dita cuja? Roberta!

Disfarcei minha surpresa. Cumprimentei Roberta com um beijinho no rosto, daqueles muito convencionais, Valdinho com um longo e efusivo abraço. Apresentei Narinha aos dois. Sentamo-nos, ofereci vinho, o que eles aceitaram sem muitas delongas e já fui pedindo outra garrafa. Narinha e Roberta, bem ligeirinho, engrenaram a conversa enquanto nós dois íamos pondo o papo em dia depois daquele tempo razoável sem nos vermos.

Pedimos a pizza e dela não sobrou nem um tiquinho. Pedimos outra e a mesma coisa, nada restou. Saciados nossos apetites, Roberta pediu outra garrafa. Antes que o garçom a trouxesse, Narinha a convidou para irem ao toalete. Mulheres não gostam de ir sozinhas fazer xixi. Incrível, precisam que a amiga vá junto. Um dia ainda desvendo esse mistério. Enfim, enquanto estavam ausentes, Valdinho quis saber se poderia me fazer uma pergunta muito pessoal. Claro que sim, disse eu. E olhem só o que ele me perguntou: você comeu a Roberta quando namoravam? Não acreditei no que ele perguntara e comentei que isso não era coisa de se questionar e ainda acrescentei que ela, Roberta, não merecia esse tipo de comentário. Ele ficou meio surpreso, mas não se deu por vencido. Se você não comeu, então comeram. Alguém chegou antes de mim, concluiu ele. Nem deu tempo de esticar a resenha, pois elas foram chegando, derrubamos mais aquela garrafa e por fim nos despedimos cordialmente. Narinha e Roberta de forma mais efusiva, como se conhecessem de algum tempo. Bem foi isso que aconteceu naquela noite. Este “isso” me tirou o sono. Nem você leitor, tem o direito de saber se eu comi ou não comi Roberta. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Daí para frente ficamos sem nos ver por muitos anos. Estou falando de Valdinho e Roberta, Nesse tempo me aconteceram duas coisas importantes: completei o curso de engenharia e no dia da formatura Narinha me deu um sonoro pé-na-bunda. Como dizia minha mãe: “aqui a gente faz, aqui a gente paga”.  Foi fazer mestrado na Inglaterra e eu sobrei na história. O leitor já fica se perguntando a meu respeito: será que ele comeu Narinha? Também não digo. Mas fiquei mal por uns meses. Tinha até planos de me casar com ela.

Mais um tempinho para frente soube que Valdinho e Roberta se casaram. Nem  convite recebi. Coisas da vida, eu diria. Enquanto isso, deixei de lado essa história de morar em apartamento. Comprei uma chácara a uns quinze quilômetros da cidade. Seis mil metros quadrados, coloquei alambrado, fiz uma casinha para Seu João e esposa. Ele para caseiro e ela para serviços na minha casa. Não tinham filhos e estavam ambos beirando os cinqüenta, dupla ideal para meu sossego. A casa eu mesmo projetei, dessas de madeira, planejada, com banheiro e cozinha em alvenaria. Fiz piscina, sauna e banheira com hidromassagem em minha suíte. Um chalé, se me permitem, de muito bom gosto. Fui morar lá.

Seu João e Dona Geny eram muito discretos quando eu levava um gadinho para meu abatedouro. Abatedouro? Sim era como eu chamava meu chalé. Gadinho? Sim, eram as mocinhas que eu trazia para lá. Estava com a vida que pedira a Deus. Levei uns três anos nesse batente.

Até que um dia estava no supermercado e quem eu vi? Quem? Roberta! Isso mesmo, Roberta! Mais bonita do que nunca. Cadê o Valdinho? Foi a primeira coisa que perguntei. Você não sabia? Foi assim que rebateu minha pergunta, com outra. Não, respondi. Então ela me deu a notícia: a gente se separou. Não dava mais. Ele tinha ciúme doentio de mim. Implicava até com minha roupa, revistava minha bolsa,  pegava meu celular para conferir minhas ligações, um inferno. De você, então? Nem podia tocar no seu nome.  De mim? Eu quis saber. Sim, de você. Ele queria saber se foi você que tirou minha virgindade. Fiquei de boca aberta em ouvir aquilo e fui mandando ver com uma pergunta: e você, o que disse? Disse que não era da conta dele, respondeu Roberta.

Nem acreditei quando ela me contou que num desses ataques de ciúme ele a agrediu com socos e pontapés. Não acredito, Roberta, disse eu espantado. Pois foi. Fiquei com raiva do meu amigo. Amigo? De agora em diante ex-amigo, isso sim.

Depois que contou sua história com Valdinho, me perguntou: e você? Com alguém? Nada, Roberta. Ninguém me quer, brinquei com ela. Narinha foi para Europa e eu sobrei no enredo. Nem notícias tive dela. Foi quando notei que Roberta conservava aquele sorriso doce como um favo de mel. Continuava bonita e apreciei quando disse: Viu? Se não tivesse terminado comigo no baile de formatura, poderíamos estar juntos, eu não teria apanhado daquele psicopata e você não estaria abandonado nesse mundão de Deus.

Aquelas palavras mexeram com minha cabeça. Com a cabeça? Com a cabeça e com o resto. Marcamos um café na tarde de sábado. No dia marcado começamos com o café. Demorado... Depois fomos tomar um chope. Um, dois... Quer conhecer meu chalé, Roberta? Por que não? Ela disse. Fomos. Uma semana depois ela foi buscar suas coisas para morar comigo.

Devo confessar uma coisa, Roberta é a mulher da minha vida. Como me arrependo de minha atitude idiota naquele baile de formatura. Quanto tempo perdemos. Foi isso que eu queria contar. Agora vocês me perguntarão: e  Valdinho? Bem, doutor Rosevaldo anda dizendo por aí que eu sou um filho da puta.

 Um dia atendi uma ligação e era ele.  Valdinho disse o que queria e me chamou de tudo que é nome. Foi então que tive uma ideia, dessas que saem do lado sombrio de nossa alma: vou deixar esse cara com mais raiva ainda e antes que ele desligasse o telefone, perguntei: você se lembra daquela indagação que você me fez na pizzaria, quando lhe apresentei Narinha? Qual pergunta? Quis saber ele. Se eu tinha comido Roberta, tá lembrado? Tô, por quê? Aí eu com toda maldade do mundo disse para ele: não vou contar! E desliguei o telefone na cara dele.

A certeza pode ser cruel, mas o que mata mesmo é a dúvida.

Bem, Roberta pratica sua medicina no consultório que montou na cidade. É oftalmologista. Eu trabalho para uma construtora. Fizemos novos amigos e nos fins de semana nossa chácara está cheia de gente. Vez ou outra fazemos nossas viagens e estamos até planejando ter menino. Quem sabe para o ano.

E o Valdinho? Ou melhor, O Doutor Rosevaldo? Por uns tempos andou dizendo por aí que ia me matar. Depois foi baixando o facho. Nem mais dele eu soube. Quero mesmo é que ele se exploda!

 

 

SABOROSA CORRUPÇÃO

 

        Tempos atrás escrevi nesta coluna uma manifestação de protesto em desagravo a uns vizinhos que tinham vindo morar aqui ao lado. Entre eles e os aqui de casa apenas um muro fazendo fronteira. Do outro lado, uma menina que chorava dez horas por dia e um galo que começava cantar as três da matina. Nem duraram seis meses e Deus deve ter ouvido minhas fervorosas preces e ajeitou para que eles se mudassem. Desapareceram. Bernadete, a menininha, deve estar arrastando suas manhas noutras vizinhanças; já o galo...Se não virou um guisado deve estar atormentando outras gentes,  em outras freguesias. Ufa!

Mas já dizem que não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe, no meu caso o bem durou pouco e mal se renovou. Uns meses de paz, silêncio e harmonia e pronto, gente nova no pedaço!

Meu novo avizinhado é um mocetão já passado dos trinta, separado da mulher e que resolveu aproveitar essa sua repentina solteirice bem onde Bernadete chorava e o galo cantava.

Até aí nada de anormal, pessoas casam, algumas se separam. O problema não está no estado civil dessa criatura, nem nas companhias (a maioria femininas) que por ali aparecem. Afinal, a vida é curta, se a gente não aproveitar enquanto pode... E o rapaz está aproveitando, pelo menos é o que indica os gritinhos que ouço da minha janela. E mais: os gritinhos de uma noite nem sempre são iguais aos da noite seguinte, o que sugere uma variação muito acentuada no elenco dessas pantomimas.

Nada disso me incomoda. Não mesmo. O problema está nos fins de semana quando esse vivente liga o som do carro. E vamos combinar o seguinte: o amigo leitor, a estimada leitora, já viram alguém que coloca aquela parafernália capaz de estourar os tímpanos de que quem está por perto, ter bom gosto musical?

Eu nunca vi um infelizes parar um monstrengo desses na porta de um bar, ou na beira da praia, para ouvir Beethoven, o nosso Vila Lobos, ou quem sabe um Chico Buarque, um Caetano, até mesmo um forró pé de serra, um samba partido alto, uma música caipira de raiz. Nada disso, gostam mesmo é de ouvir aquele  batidão sertanejo, vulgo sofrência, Música (se é que assim pode ser chamada) que utiliza no máximo duas notas e creio que nenhum acorde, pregada a uma letra que sempre relata que alguém deu ou levou um pé muito bem dado no traseiro. Ouviu uma, ouviu todas.

Isso aqui começa umas nove da manhã e vai até à noite lá pelas nove também. Domingo a mesma coisa. E mais, minha gente: nada tão democrático qual o mau gosto, quem o tem, gosta de partilhar, não guarda só para si. Daí o volume nas alturas.

 Como isso não bastasse, para levar a tortura ao limite, acende a churrasqueira que fica bem próxima ao nosso muro. Quando o fogo está bem aceso, esse desalmado joga um pedacinho de gordura na brasa só para sair aquela fumaça recendendo à picanha. Ele sabe que aquilo chegará às minhas ventas.

Domingo que passou foi assim. O desconforto não me permitia ler, escrever, nem mesmo assistir um filme. Dormir nem pensar. Então resolvo pegar o ciscador e recolher as folhas de cajueiro que estavam se acumulando no quintal.  Eu ali na lida, molhei as plantas, podei uma roseira, dei um trato na orquídea, alimentei os canários. E quando eu menos esperava o deletério colocou a caramunha por cima do muro e...

_Bom dia, vizinho! - todo sorridente e antes que eu respondesse- aceita uma?

E me ofereceu uma latinha de cerveja, marca das mais consideradas. Olhei aquilo, pensei, pensei e ... Por que, não? Aceitei. Nem dez minutos depois e ele novamente:

_ Aceita outra? Tá geladinha, olha só. No grau!

Fiz aquela cara de desentendido, como que não gostasse tanto de cerveja, mas ele insistiu e de graça, meus amigos, até excursão para Teresina. Aceitei o regalo! 

Quanta gentileza. Pouquinho depois me apareceu com um naco de picanha espetada em um garfo enorme.

_ Aceita? É argentina. Tá uma delícia! – para quem aceitou duas latinhas, que mal havia em aceitar um pedacinho de picanha, ainda mais argentina. E a cortesia deu seguimento – mais uma latinha, vizinho, picanha sem cerveja não combina.

Não combina mesmo. Na quinta latinha, mais  alguns nacos  de picanha ao ponto e umas lingüiças apimentadas  ele quis saber:

_O som tá incomodando?

_De jeito nenhum. Eu até estou curtindo – e disse isso até com alguma convicção.

Do que a corrupção é capaz!

 

 

 

 

O XIXI DO ANÃO

Tiburcio era nome dele. Gente com um nome desses dá para imaginar que deva se tratar de um homenzarrão de quase dois metros, forte como búfalo e bravo como um urso. Nada disso. O Tiburcio em questão era um tiquinho de gente. Passava uma coisinha de um metro de altura, bracinhos curtos como os de um jacaré, perninhas tortas com a concavidade para dentro e aquele cabeção que dá para imaginar o estrago que fez quando nasceu. Nosso amigo em pauta era um anão. O que tinha de pequenino tinha de abusado.

Mais marrento que Tiburcio, só mesmo Hermenegildo dono da venda onde o nosso anão gostava de molhar a garganta nos finais de tarde. Para quem não sabe, venda era como se chamavam os armazéns de antigamente, os empórios, os secos e molhados. Como o próprio nome sugere, numa venda vendia-se de tudo. Na de Hermenegildo também. Óleo Glostora, brilhantina Gumex. Regulador Xavier e Pílulas de Vida do Doutor Ross. Graxa de sapato, óleo de peroba, querosene, sabão em pedra, sabonete, corda, barbante, corrente de prender cachorro, balde, panelas de alumínio, vassoura, rodo, pano de chão, pente, grampos para o cabelo, grampos para varal, arame, pregos, parafusos, naftalina, ratoeira, aviamentos para costura, linhas, botões, azeite, óleo vegetal, banha, sal, açúcar, álcool, fogareiro, lampião, lâmpadas, fios, tomadas, milho, arroz, feijão, mortadela, salame, bacalhau, detefon...Enfim, o que marcava presença no comércio e não fosse muito sofisticado, caviar por exemplo, estavam nas prateleiras de nossas vendas daqueles tempos idos. Ia me esquecendo, cachaça, claro que sim. Voltando ao proprietário...

Hermenegildo não era gente de fino trato, grosso como uma lixa.  Lápis na orelha, bigodão de fazer medo. Esse sim era grandão e arrastava asas de valente. Tirou muito cachaceiro de lá aos pescoções. E não era nada cortês com a freguesia, nem precisava, era o único estabelecimento daquele porte naquela cidadezinha de menos de dez mil almas.

Só vendia cachaça depois das cinco da tarde quando colocava uma mesa na calçada para as rodadas de truco. Tibúrcio era um gigante no baralho e muito ardiloso no truco. Para quem não conhece, o truco é um jogo de cartas com blefe e astúcias acompanhadas de provocações e gritarias. Vez ou outra Hermenegildo participava da jogatina. Foi aí que a coisa pegou. Num desses dias, Tibúrcio trucou de falso no grandão que caiu no blefe do anão. Ao colocar o rabo entre as pernas e fugir da parada viu o baixinho mostrar as cartas, um par de seis e uma sota. Ficou furioso por ter caído na esparrela e ainda ouviu o cabeçudinho chamá-lo de cagão. Tiveram que segurar o homem que por pouco não cobriu o menorzinho de pancada e ainda disse:

_ Nunca mais apareça aqui anão filho da p....

Tiburcio ficou um tempão sem aparecer, mas ficou costurando uma vingança. Queria desmoralizar a valentia daquele sujeito pimpão. E num final de tarde apareceu todo marrento e já foi dizendo ao vendeiro.

_ Vou fazer uma aposta com você. Se não topar é porque é cagão mesmo – Hermenegildo quase perde a boa, mas resolveu mostrar que não era um borra calças como o anão insinuava e topou a parada.

_ Diz aí o que é alpinista de sarjeta.

_ É seguinte: tá vendo esse copo? – pegou um daqueles copos Nadir Figueiredo, lembram da marca? Colocou o copo no chão – aposto cem mil réis (moeda da ocasião) que eu fico aqui de pé, mijo nesse copo e não deixo cair uma gota fora.

Hermenegildo pediu que vigiassem a porta para não entrar mulher e todo posudo topou a encrenca.

_ De boca só beijo baixinho safado, mostra o cem mil réis, põe aqui no balcão que eu ponho a minha parte e vamos ver sua pontaria.

 A corriola juntou em volta do anão, do copo e o baixinho foi tirando “aquela coisa” das calças e tome fazer xixi. Nem uma gotinha só caiu dentro do copo. Hermenegildo ria, ria de quase estourar o peito. Pegou os duzentos mil réis do balcão e não parava de rir. Dinheiro fácil. Foi então que Tiburcio mostrou porque viera.

         _ Olha aqui. Você é metido a valente, mas é um cagão mesmo. Tá vendo aqueles quatro sujeitos do outro lado da rua?

         _ Tô, por que anão safado? E vai falando logo senão meto a mão na sua cara.

_ Pois apostei cem mil réis com cada um deles, que eu entrava aqui, mijava no assoalho da sua venda e você, com medo de mim, ainda ia ficar rindo como um idiota.

Tiburcio desapareceu. Afinal, um anão se esconder não é tão difícil assim. Já Hermenegildo...Vai arrastar a fama de frouxo para o resto da vida. Onde já se viu deixar um baixinho daquele tamanho fazer aquilo na sua venda e ainda achar engraçado?