quarta-feira, 30 de setembro de 2020

 

                      CHIMBICA ESTÁ INDO EMBORA....

         Cauê, meu filho, que tão precocemente fez aquela viagem fora do combinado, certa vez me perguntou quando ainda pequenino: “pai, por que existe gente que não tem cachorro?”.

         Não pude responder aquela indagação que me pareceu tão intrigante. Desde que me casei (foram só duas vezes), nunca deixei de tê-los. Passados tantos anos  essa questão ainda me intriga. Como pode? Não sei meu filho. Por onde é que esteja você, para muito além desse mundo, aceite essas escusas do seu pai por deixar esse questionamento sem resposta. Mas falemos deles, os cachorros, que encheram de alegria nossas vidas.

         Minha primeira parceria com essas criaturas de quatro patas chamava-se Laika. Vira-lata muito simpática e buliçosa. Eu tinha seis anos quando encontrei aquela coisinha perdida em frente a minha casa. Recolhi a pobre a despeito dos protestos de minha mãe. Laika morreu quando um enorme cão hidrófobo entrou pelo nosso quintal e tentou atacar minha irmã caçula que estava brincando na varanda. Defendeu Norminha com a fúria de uma leoa, mas morreu em conseqüência disso. Minha irmã saiu ilesa desse episódio. A partir daí, só pude ter cães quando fui dono de meu nariz; ou seja, quando casei.

         Você não chegou a conhecer Argos (Janaína e Ariadne, sim) aquele boxer cujo nome fui buscar na mitologia grega, pois achei muito poético um cachorro ser capaz de reconhecer seu dono – Odisseu - depois deste retornar de Troia passado tanto tempo. Queria ter um animal tão apegado a mim como esse. Tive. Por isso o batizei com o nome da embarcação que o herói grego navegou pelo Egeu no seu retorno ao lar.

         Preta, você conheceu, uma mestiça que tinha cinqüenta por cento de sangue pastor alemão e a outra metade, sei lá de que procedência.  Vigilante, carinhosa, muitas vezes você caminhou com ela pela praia. Foi triste quando a bichinha partiu. Sempre é. Éramos muito apegados a ela. Sempre somos.

         Janes, era nossa Janes Joplin, nossa cachorra-roqueira. Quem a batizou de Janes Joplin foi Janaína, mas ficou só Janes. Essa, pura de raça como Rin-tin-tim, pastor alemão da mais nobre procedência. Meiga como uma gueixa, fazia dupla com a espevitada Samanta, uma pastor belga muito selerepe. Marcaram minha vida, a sua e a de seus irmãos.

         Se não me falha a memória você conheceu Boris aquele boxer invocado que dei de presente para seu irmão, Iago. Havia muito chamego entre eles dois. Seu irmão já está advogando, namorando firme com Gabi. Qualquer hora dessas começa distribuir convites de casamento. Já imaginou o presente que vou dar a ele?

         E Mel? Doze anos conosco. Essa você conheceu. Uma poodle  (os dessa raça são muito inteligentes) muito sabida e protetora.  Nessa minha vida atribulada durante esses anos morou conosco em Campinas, Bauru, Natal e João Pessoa. Partiu no mesmo ano que Gauss, em 2012. Foi um ano muito complicado em minha vida e ainda acrescido dessas duas perdas.

         Gauss, um boxer sabido que só. Companheirão, vigilante, doce com os amigos, invocado com os desconhecidos. A partida deles, Gauss e Mel, foi como a de parente querido. Muito triste.

         Paxá, o cão de Gabriela, sua irmã. Um labrador traquinas que destruiu jardins, comeu móveis...Mas como era carinhoso. Foi provavelmente um problema cardíaco que o levou precocemente no ano passado. Gabriela sofreu muito, era seu bicho quase gente, que não desgrudava dela, carne e unha. Também ficamos  mal, eu e Ana. Como não ficar?

         No lugar de Paxá, veio o Fred, da mesma raça, está com nove meses e estamos tentando por esse “rapaz” na trilha dos bons caminhos. Parece que estamos conseguindo.

         Agora, Chimbica (mulher e filha chamam-na, Nina).

         Chimbica (é uma beagle) está conosco desde 2010. Fez dez anos. Para se comparar com a idade dos humanos é só multiplicar por 7. Portanto, é uma senhora idosa no alto de suas sete décadas de vida. Mas a pobrezinha passou por duas cirurgias para eliminar um câncer. Não deu certo, a praga dessa doença voltou. Está fraquinha, come pouco, dorme muito. Nós aqui estamos cientes, a vida dessa criaturinha está se esvaindo como uma velinha que vai se apagando. Basta um ventinho mais forte e pronto. Tudo se acaba. Enquanto isso, vamos tentando aliviar qualquer desconforto. Remédios e muita atenção para com essa senhorinha. Ela parece estar ciente dessa aritmética perversa que vai subtraindo dias de sua biografia.

         Mas Chimbica está cumprindo sua missão, a missão que todos os cães têm: ser fiel e companheiro. Enquanto escrevo esse relato, ela está aqui com a  cabeça pousada sobre meus pés, como sempre faz enquanto escrevo Vez ou outra  me olha com ternura e sinto pelo seu olhar que está me dizendo: “amigão, estou aqui. Estarei com você até o fim.”

         Então, meu filho querido, talvez você possa entender porque deixei sem resposta aquela sua pergunta: “pai, por que existe gente que não tem cachorro?”.   

        

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