sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O XIXI DO ANÃO

Tiburcio era nome dele. Gente com um nome desses dá para imaginar que deva se tratar de um homenzarrão de quase dois metros, forte como búfalo e bravo como um urso. Nada disso. O Tiburcio em questão era um tiquinho de gente. Passava uma coisinha de um metro de altura, bracinhos curtos como os de um jacaré, perninhas tortas com a concavidade para dentro e aquele cabeção que dá para imaginar o estrago que fez quando nasceu. Nosso amigo em pauta era um anão. O que tinha de pequenino tinha de abusado.

Mais marrento que Tiburcio, só mesmo Hermenegildo dono da venda onde o nosso anão gostava de molhar a garganta nos finais de tarde. Para quem não sabe, venda era como se chamavam os armazéns de antigamente, os empórios, os secos e molhados. Como o próprio nome sugere, numa venda vendia-se de tudo. Na de Hermenegildo também. Óleo Glostora, brilhantina Gumex. Regulador Xavier e Pílulas de Vida do Doutor Ross. Graxa de sapato, óleo de peroba, querosene, sabão em pedra, sabonete, corda, barbante, corrente de prender cachorro, balde, panelas de alumínio, vassoura, rodo, pano de chão, pente, grampos para o cabelo, grampos para varal, arame, pregos, parafusos, naftalina, ratoeira, aviamentos para costura, linhas, botões, azeite, óleo vegetal, banha, sal, açúcar, álcool, fogareiro, lampião, lâmpadas, fios, tomadas, milho, arroz, feijão, mortadela, salame, bacalhau, detefon...Enfim, o que marcava presença no comércio e não fosse muito sofisticado, caviar por exemplo, estavam nas prateleiras de nossas vendas daqueles tempos idos. Ia me esquecendo, cachaça, claro que sim. Voltando ao proprietário...

Hermenegildo não era gente de fino trato, grosso como uma lixa.  Lápis na orelha, bigodão de fazer medo. Esse sim era grandão e arrastava asas de valente. Tirou muito cachaceiro de lá aos pescoções. E não era nada cortês com a freguesia, nem precisava, era o único estabelecimento daquele porte naquela cidadezinha de menos de dez mil almas.

Só vendia cachaça depois das cinco da tarde quando colocava uma mesa na calçada para as rodadas de truco. Tibúrcio era um gigante no baralho e muito ardiloso no truco. Para quem não conhece, o truco é um jogo de cartas com blefe e astúcias acompanhadas de provocações e gritarias. Vez ou outra Hermenegildo participava da jogatina. Foi aí que a coisa pegou. Num desses dias, Tibúrcio trucou de falso no grandão que caiu no blefe do anão. Ao colocar o rabo entre as pernas e fugir da parada viu o baixinho mostrar as cartas, um par de seis e uma sota. Ficou furioso por ter caído na esparrela e ainda ouviu o cabeçudinho chamá-lo de cagão. Tiveram que segurar o homem que por pouco não cobriu o menorzinho de pancada e ainda disse:

_ Nunca mais apareça aqui anão filho da p....

Tiburcio ficou um tempão sem aparecer, mas ficou costurando uma vingança. Queria desmoralizar a valentia daquele sujeito pimpão. E num final de tarde apareceu todo marrento e já foi dizendo ao vendeiro.

_ Vou fazer uma aposta com você. Se não topar é porque é cagão mesmo – Hermenegildo quase perde a boa, mas resolveu mostrar que não era um borra calças como o anão insinuava e topou a parada.

_ Diz aí o que é alpinista de sarjeta.

_ É seguinte: tá vendo esse copo? – pegou um daqueles copos Nadir Figueiredo, lembram da marca? Colocou o copo no chão – aposto cem mil réis (moeda da ocasião) que eu fico aqui de pé, mijo nesse copo e não deixo cair uma gota fora.

Hermenegildo pediu que vigiassem a porta para não entrar mulher e todo posudo topou a encrenca.

_ De boca só beijo baixinho safado, mostra o cem mil réis, põe aqui no balcão que eu ponho a minha parte e vamos ver sua pontaria.

 A corriola juntou em volta do anão, do copo e o baixinho foi tirando “aquela coisa” das calças e tome fazer xixi. Nem uma gotinha só caiu dentro do copo. Hermenegildo ria, ria de quase estourar o peito. Pegou os duzentos mil réis do balcão e não parava de rir. Dinheiro fácil. Foi então que Tiburcio mostrou porque viera.

         _ Olha aqui. Você é metido a valente, mas é um cagão mesmo. Tá vendo aqueles quatro sujeitos do outro lado da rua?

         _ Tô, por que anão safado? E vai falando logo senão meto a mão na sua cara.

_ Pois apostei cem mil réis com cada um deles, que eu entrava aqui, mijava no assoalho da sua venda e você, com medo de mim, ainda ia ficar rindo como um idiota.

Tiburcio desapareceu. Afinal, um anão se esconder não é tão difícil assim. Já Hermenegildo...Vai arrastar a fama de frouxo para o resto da vida. Onde já se viu deixar um baixinho daquele tamanho fazer aquilo na sua venda e ainda achar engraçado?

 

 

 

 

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