sexta-feira, 18 de setembro de 2020

QUERO MAIS QUE ELE EXPLODA (Roberta)

 

                      

                        

Se acaso você chegasse
No meu chatô encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem de trocar a nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou
. Lupicínio Rodrigues

         Rosevaldo sempre foi amigo do peito, desde o tempo das bolas de gude, do de colocar pipa no céu em tardes de vento nos frios de julho. Camaradagem que começou na quarta série do grupo escolar sob a batuta de Dona Lia, brava que só.

Casas só meia quadra de lonjura uma da outra, fazíamos juntos o dever de escola para darmos conta da aritmética de Dona Lia e de outras pendengas que nossa professora cobrava com muito rigor e autoridade no dia seguinte. No sábado, vestíamos a camisa amarela de listas negras do  quadro infantil do nosso querido Botafoguinho de Vila Esperança, esquadrão de muito respeito  no bairro, cujo time principal fora duas vezes campeão do torneio amador de nossa cidade. Eu na meia direita e ele na ponta do mesmo lado, sonhávamos, quando crescêssemos, chegar ao quadro principal, quem sabe um dia até à Seleção. Claro que essas quimeras pouco duraram, uns três anos mais, talvez. Depois surgiram outras presunções, tanto para mim como para Valdinho e nossa bola foi sobrar para sempre na baliza de escanteio.

Fizemos juntos o Curso de Admissão ao Ginásio com Dona Geny, uma gorda sessentona que ganhara fama pela eficiência, esta comprovada pelos índices altos de aprovação dos seus pupilos. Naqueles tempos, o Admissão era uma edição formato brochura do vestibular que iríamos enfrentar sete anos à frente. Aprovados com louvor, chegamos juntos ao ginásio. Continuamos dedicando nossas tardes às nossas obrigações. Umas três horas diárias com a mão no lápis. Algumas vezes em minha casa. Outras na dele. Na casa de Valdinho, Dona Guiomar fazia gosto em nos ver pegando firme em nossas responsabilidades e no meio da tarde nos servia bolo de fubá com chá Mate Leão. Muito gostoso aquele bolo de Dona Guiomar com tempero de erva-doce. Já em casa, quando muito cafezinho preto e umas bolachinhas. Durante aqueles quatro anos, nossas cadernetas só tinham notas em azul, nunca pegamos uma segunda época. Segunda época? Eram assim chamadas as provas de fevereiro para quem não fosse aprovado durante o ano letivo anterior. Era a última chance e no máximo em três matérias, em caso contrário reprovação e não adiantava reclamar nem para o bispo. Nem havia também esse mi-mi-mi de conselho de classe.

 Naqueles anos tivemos nossas namoradinhas, tipo pegar na mão nas matinês de domingo. Nada de avanços significativos, pelo menos de minha parte.  Uma vez Valdinho me perguntou se eu já pegara nos peitinhos de Dolores, minha namoradinha da vez. Achei aquilo um absurdo. Então, tasquei a indagação de volta e perguntei: e você já pegou no peitão da Salete? Claro que sim, já até beijei ela na boca, completou ele com as suas ousadias e prováveis mentiras. Estranhei aquela quebra na hierarquia das carícias. Pelo jeito que meu amigo falava, primeiro pegava-se nos peitos e depois se beijava na boca e não o contrário como eu sempre imaginara. Ele também não fez cara de bons amigos quando eu disse que Salete tinha peitão, mas ficou por isso mesmo. Tínhamos quantos anos na época? Uns treze, a do peitinho e a do peitão também. Tivemos outros namoricos, mas nunca mais diferenciamos as meninas por suas anatomias.

Terminados os quatro anos de ginásio, fomos encarar  três outros anos de científico. Para essa etapa eram duas salas em nosso colégio, a da turma de engenharia (não se falava turma de exatas) onde eu fiquei e a de medicina (também não se falava turma de biológicas) onde ficou Valdinho. Os currículos eram os mesmos, exceção de um pormenor; pois, na minha turma estudava-se desenho (desenho geométrico e geometria descritiva) e na do meu amigo, biologia. Digo isso porque continuamos juntos nossas rotinas de estudo. Tomamos nossas primeiras cervejas e a tal primeira vez de ambos, aconteceu no mesmo dia, melhor dizendo, na mesma tarde em casa de Dona Diana, uma conhecida cafetina da cidade, que no período vespertino fazia a generosidade de conceder abatimento para os iniciantes. Ainda me lembro, saímos de lá muito posudos depois daquele rito de passagem.

Época boa dos bailinhos para dançar agarradinho músicas italianas., namoros com mais atrevimentos. Nesses tempos namorei por quase dois anos Roberta, colega de turma de Valdinho. Ah, esses bailinhos! Lá chamávamos de “brincadeira dançante” e gostava de dançar de rosto colado ao dela ouvindo a voz de Peppino di Capri cantando aquela música que tinha o nome dela. Hoje passados tantos anos, ainda me lembro da letra todinha. Querem ver? Aí vai:

Lo sai non è vero/Che non ti voglio più/Lo so non mi credi/Non hai fiducia in me/Roberta, ascoltami/Ritorna, ancor' ti prego/Con te, ogni instante/Era felicita/Ma io non capivo/Non t'ho saputo amar/Roberta, perdonami/Ritorna ancor', vicino a me/Roberta, ascoltami/Ritorna, ancor'/ti prego/Con te ogni instante/Era felicita.

         Enquanto namorei Roberta, Valdinho sassaricou uns tempos com Angelina, outros com Flora Regina e ainda com Maria Aída que era a garota mais bonita do colégio. Valdinho era um danado.

         Sempre íamos aos domingos com as namoradas na sessão das sete. Namorar no cinema era tudo de bom. Quando não estávamos nessas lidas, vez ou outra um futebol sábado à tarde e domingo cedo piscina na Associação Atlética. O que posso dizer desses tempos? Bons demais.

Quando terminamos o científico, Valdinho foi fazer cursinho em São Paulo. Maria Aída passou para direito e se tornou anos depois a promotora mais bonita de nossa cidade. Flora Regina casou, engordou e teve filhos. De Angelina nunca mais soube. Eu passei no vestibular e fui fazer engenharia por aqui mesmo. E Roberta? Foi fazer medicina em São Paulo. Antes disso, em nosso baile de formatura terminamos o namoro. Por quê? Perguntou Roberta entre um soluço e outro. Não vai dar certo, você lá e eu aqui, argumentei. A gente se vê nos fins de semana, num eu venho, noutro você vai, ainda ponderou ela. Fui firme em minha decisão. Confesso que gostava muito dela, muito mesmo. Nem disse, Roberta era muito bonita. Na verdade rolou ciúme de minha parte. Não tinha maturidade para um namoro naquelas condições. Sofri? Sim, e como. Ela mais que eu, mas achei melhor assim.

 Depois disso, eu via Valdinho raramente, os interesses eram outros, mas amizade não se desfez. Quando aparecia por aqui nos fins de semana tomávamos nossa cerveja e relembrávamos nossas peripécias de adolescentes. Um ano depois ele me chegou com a boa nova, aprovado para medicina na USP. Já não disse que Valdinho era um danado? Tomamos todas para comemorar.

A faculdade dele e a minha não facilitavam nossos encontros. Ele lá com seus ossos e com minhas integrais, éramos escravos das provas e dos comprimidos de “Reativan” que nos deixavam acesos noites após noites. Tempo de sobra, quase nenhum. Passamos a nos ver pouco e assim foi por uns três anos. Nesse tempo conheci e namorei Narinha. Precisavam ver que beleza exótica a de Narinha. Tinha olhos d’água, cabelos cor de cobre e um pouquinho de sardas espalhada com muito encanto e parcimônia naquele rosto de sobrar encantos. Posso dizer que me apaixonei por aquela ruivinha delicada e inteligente.

Um belo dia, Valdinho me telefonou e perguntou como é que eu ia indo na vida, se eu estava namorando e com quem, como  levava meu curso, etc, etc, etc. Depois de jogar muita conversa fora sugeriu que nos encontrássemos num fim de semana. E que eu levasse minha namorada que eles gostariam muito de conhecer. Eles? Sim, eu e minha namorada, disse ele. E ainda completou: você vai ter uma surpresa. Marcamos a data e a pizzaria. Seria num sábado em que a véspera era feriado permitindo-nos um pequeno recesso em nossas atividades acadêmicas.

No dia, ou melhor, na noite que nos encontramos, que surpresa! Chegamos primeiro, eu e Narinha. Escolhemos uma mesa e fomos pedindo uma garrafa de vinho para darmos um tempinho enquanto Valdinho não chegava. Já era de se esperar, pontualidade não era o forte dele. Mas dessa vez nem demorou tanto. Nem havíamos terminado a primeira taça quando ele apareceu todo pimpão com a namorada a tira-colo. E quem era a dita cuja? Roberta!

Disfarcei minha surpresa. Cumprimentei Roberta com um beijinho no rosto, daqueles muito convencionais, Valdinho com um longo e efusivo abraço. Apresentei Narinha aos dois. Sentamo-nos, ofereci vinho, o que eles aceitaram sem muitas delongas e já fui pedindo outra garrafa. Narinha e Roberta, bem ligeirinho, engrenaram a conversa enquanto nós dois íamos pondo o papo em dia depois daquele tempo razoável sem nos vermos.

Pedimos a pizza e dela não sobrou nem um tiquinho. Pedimos outra e a mesma coisa, nada restou. Saciados nossos apetites, Roberta pediu outra garrafa. Antes que o garçom a trouxesse, Narinha a convidou para irem ao toalete. Mulheres não gostam de ir sozinhas fazer xixi. Incrível, precisam que a amiga vá junto. Um dia ainda desvendo esse mistério. Enfim, enquanto estavam ausentes, Valdinho quis saber se poderia me fazer uma pergunta muito pessoal. Claro que sim, disse eu. E olhem só o que ele me perguntou: você comeu a Roberta quando namoravam? Não acreditei no que ele perguntara e comentei que isso não era coisa de se questionar e ainda acrescentei que ela, Roberta, não merecia esse tipo de comentário. Ele ficou meio surpreso, mas não se deu por vencido. Se você não comeu, então comeram. Alguém chegou antes de mim, concluiu ele. Nem deu tempo de esticar a resenha, pois elas foram chegando, derrubamos mais aquela garrafa e por fim nos despedimos cordialmente. Narinha e Roberta de forma mais efusiva, como se conhecessem de algum tempo. Bem foi isso que aconteceu naquela noite. Este “isso” me tirou o sono. Nem você leitor, tem o direito de saber se eu comi ou não comi Roberta. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Daí para frente ficamos sem nos ver por muitos anos. Estou falando de Valdinho e Roberta, Nesse tempo me aconteceram duas coisas importantes: completei o curso de engenharia e no dia da formatura Narinha me deu um sonoro pé-na-bunda. Como dizia minha mãe: “aqui a gente faz, aqui a gente paga”.  Foi fazer mestrado na Inglaterra e eu sobrei na história. O leitor já fica se perguntando a meu respeito: será que ele comeu Narinha? Também não digo. Mas fiquei mal por uns meses. Tinha até planos de me casar com ela.

Mais um tempinho para frente soube que Valdinho e Roberta se casaram. Nem  convite recebi. Coisas da vida, eu diria. Enquanto isso, deixei de lado essa história de morar em apartamento. Comprei uma chácara a uns quinze quilômetros da cidade. Seis mil metros quadrados, coloquei alambrado, fiz uma casinha para Seu João e esposa. Ele para caseiro e ela para serviços na minha casa. Não tinham filhos e estavam ambos beirando os cinqüenta, dupla ideal para meu sossego. A casa eu mesmo projetei, dessas de madeira, planejada, com banheiro e cozinha em alvenaria. Fiz piscina, sauna e banheira com hidromassagem em minha suíte. Um chalé, se me permitem, de muito bom gosto. Fui morar lá.

Seu João e Dona Geny eram muito discretos quando eu levava um gadinho para meu abatedouro. Abatedouro? Sim era como eu chamava meu chalé. Gadinho? Sim, eram as mocinhas que eu trazia para lá. Estava com a vida que pedira a Deus. Levei uns três anos nesse batente.

Até que um dia estava no supermercado e quem eu vi? Quem? Roberta! Isso mesmo, Roberta! Mais bonita do que nunca. Cadê o Valdinho? Foi a primeira coisa que perguntei. Você não sabia? Foi assim que rebateu minha pergunta, com outra. Não, respondi. Então ela me deu a notícia: a gente se separou. Não dava mais. Ele tinha ciúme doentio de mim. Implicava até com minha roupa, revistava minha bolsa,  pegava meu celular para conferir minhas ligações, um inferno. De você, então? Nem podia tocar no seu nome.  De mim? Eu quis saber. Sim, de você. Ele queria saber se foi você que tirou minha virgindade. Fiquei de boca aberta em ouvir aquilo e fui mandando ver com uma pergunta: e você, o que disse? Disse que não era da conta dele, respondeu Roberta.

Nem acreditei quando ela me contou que num desses ataques de ciúme ele a agrediu com socos e pontapés. Não acredito, Roberta, disse eu espantado. Pois foi. Fiquei com raiva do meu amigo. Amigo? De agora em diante ex-amigo, isso sim.

Depois que contou sua história com Valdinho, me perguntou: e você? Com alguém? Nada, Roberta. Ninguém me quer, brinquei com ela. Narinha foi para Europa e eu sobrei no enredo. Nem notícias tive dela. Foi quando notei que Roberta conservava aquele sorriso doce como um favo de mel. Continuava bonita e apreciei quando disse: Viu? Se não tivesse terminado comigo no baile de formatura, poderíamos estar juntos, eu não teria apanhado daquele psicopata e você não estaria abandonado nesse mundão de Deus.

Aquelas palavras mexeram com minha cabeça. Com a cabeça? Com a cabeça e com o resto. Marcamos um café na tarde de sábado. No dia marcado começamos com o café. Demorado... Depois fomos tomar um chope. Um, dois... Quer conhecer meu chalé, Roberta? Por que não? Ela disse. Fomos. Uma semana depois ela foi buscar suas coisas para morar comigo.

Devo confessar uma coisa, Roberta é a mulher da minha vida. Como me arrependo de minha atitude idiota naquele baile de formatura. Quanto tempo perdemos. Foi isso que eu queria contar. Agora vocês me perguntarão: e  Valdinho? Bem, doutor Rosevaldo anda dizendo por aí que eu sou um filho da puta.

 Um dia atendi uma ligação e era ele.  Valdinho disse o que queria e me chamou de tudo que é nome. Foi então que tive uma ideia, dessas que saem do lado sombrio de nossa alma: vou deixar esse cara com mais raiva ainda e antes que ele desligasse o telefone, perguntei: você se lembra daquela indagação que você me fez na pizzaria, quando lhe apresentei Narinha? Qual pergunta? Quis saber ele. Se eu tinha comido Roberta, tá lembrado? Tô, por quê? Aí eu com toda maldade do mundo disse para ele: não vou contar! E desliguei o telefone na cara dele.

A certeza pode ser cruel, mas o que mata mesmo é a dúvida.

Bem, Roberta pratica sua medicina no consultório que montou na cidade. É oftalmologista. Eu trabalho para uma construtora. Fizemos novos amigos e nos fins de semana nossa chácara está cheia de gente. Vez ou outra fazemos nossas viagens e estamos até planejando ter menino. Quem sabe para o ano.

E o Valdinho? Ou melhor, O Doutor Rosevaldo? Por uns tempos andou dizendo por aí que ia me matar. Depois foi baixando o facho. Nem mais dele eu soube. Quero mesmo é que ele se exploda!

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário