Breve
folhetim em dois emocionantes capítulos. Recomendado aos leitores e leitoras
que não fazem beicinho diante do politicamente incorreto..
Capítulo I
Pedro Caveirinha era magro que só.
Ninguém sabia como aquele um metro e oitenta de esqueleto parava em pé. Uns
diziam que aquela magreza era hereditária, outros porque nosso amigo fumava
como um caipora, duas carteiras diárias. Já para uns, aquela escassez de carnes
e músculos era falta de alimentação. Já eu, achava que a finura de Pedro era de
padecimento. Caveirinha sofreu como sovaco de aleijado. Pois é isso, meus
amigos, minhas amigas, Pedro Caveirinha morava com a sogra. Morar com sogra não
é fácil. Mas se a sogra fosse Dona Eloá, aí que a coisa pegava. Deus quando
distribuiu as maldades, ela entrou pelo menos duas vezes na fila e encheu seu
bornal com todas as malvadezas que conseguiu pegar. Era ruim de fazer inveja ao
tinhoso.
Já Pedro Caveirinha não fazia mal a um
percevejo. Não reclamava nem de dor de dente. No escritório em que trabalhava, sempre que alguém tinha
uma oportunidade dava um “migué” e empurrava o trabalho para Caveirinha. Era um tal de Caveirinha me faz um
favor aqui, me faz um obséquio ali, uma gentileza acolá e Pedro fazia de tudo para estar bem com todos. Não
discutia política, religião ou futebol para não se indispor. Do futebol dizia
que era torcedor só da Seleção. Na política, sempre em cima do muro e pulava
fora das conversas sobre o assunto, Quanto às religiões, se o convidassem para
um casamento, batizado ou mesmo uma missa, Caveirinha ia. Ouvia com muito
fervor a homilia e com a empolgação de um beato rezava os Pais Nossos e as Aves
Marias. Se o caso fosse ter que ir a um templo evangélico, lá estava Caveirinha
aceitando o convite, ouvindo a palavra e pagando o dízimo. Há quem diga que
teria visto nosso Pedro Caveirinha batendo um tambor no terreiro do Pai
Vicente. Dizem.
Supõe-se
que jamais discutiu, ofendeu, maltratou, foi indelicado com quem quer que seja.
Talvez isso tenha encantado Neusinha Tanajura. Porque grana não pode ter sido,
pois nosso amigo ganhava uma merreca. Mocetão já fincado nos trinta, ainda
morava com os pais antes de se casar. Agora, o que de Neuzinha encantou o nosso
Pedro, quem está lendo esses rabiscos já desconfia. Foi aquilo mesmo a que alcunha
de Neusinha faz referência. Pedro se encantou com a retaguarda de sua eleita. Mas,
para encurtar a história, casaram e foram morar com a sogra, Dona Heloá.
Ali
Pedro Caveirinha percorreu todos os nove círculos de Dante, mas foi se
estabelecer no último: o inferno. Quem fazia essa alegação era o próprio, pois
saibam, era homem de alguma leitura. Sofreu o coitado. O melhor tratamento que
recebia da sogra era “aquele um”. Esse o melhor. Havia outros: pé rapado,
imprestável, zé-ninguém e outros do mesmo jaez. Mas já dizem, não há bem que
sempre dure e mal que nunca se acabe. Um
belo dia Dona Eloá foi para São Paulo (moravam em Jacareí) visitar uma irmã e
ao chegar à rodoviária paulistana, Deus a chamou para uma conversa. Dali para o
IML. As autoridades procuraram os parentes encontraram Neusina. Vai daqui, vai
dali, era preciso trazer o corpo. E todo mundo sabe como essas coisas são
complicadas. Para se chegar ao atestado de óbito o percurso é longo e pedregoso.
E só com esse documento que liberam o defunto. Neusinha autoritária como a mãe,
encarregou o marido da empreitada.
_
Você vai trazer mãe. Pode ir se virando.
Então Caveirinha, foi se virando. Falou com o
Doutor Pitombeira, advogado com muito tempo de toga, amigo seu, bom de sinuca e de conversa. Conheciam-se lá do
Taco de Ouro.
_
Trazer a defunta de São Paulo para Jacareí é complicado. Funerária daqui não
pode trazer defunto de lá e funerária de lá não pode trazer defunto até aqui –
alertou Doutor Pitombeira.
_
E como é que a gente faz pra trazer a jararaca? Por mim cremava aquela peste lá
mesmo.
_
Vamos ao IML em São Paulo. Pede para Neusinha ir vendo uma funerária aqui.
Deixa tudo nos conformes que nós vamos trazer o corpo. Tem dinheiro aí?
_
Tenho. Bora no meu maverique. Vamos ver se a gente traz aquela coisa antes que
apodreça.
E
foram, no maverique de Caveirinha
Não
perca na próxima quarta-feira, nesta mesma coluna, onde o autor, um folgazão,
irá proporcionar momentos de tensão, expectativa, com um final emocionante e
inesperado
"No terreiro do pai Vicente", essa referência é pra poucos. AHAHAHA, muito boa essa crônica!
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