quarta-feira, 8 de abril de 2020

Narinha e a ambulância


Narinha e o marido Durvalino não perdiam um pagode nas tardes de sábado, lá no botequim do Alcides. Dos que freqüentavam aquele samba, Celestino era o protagonista, um danado no cavaquinho, além de que era também bom de gogó  e sua cantoria era o que mais animava a gafieira. Sem Celestino o pagode perdia o fôlego, desafinados teimavam em cantar e ninguém se prontificava a arrastar as mesas para um rala-bucho. Bom mesmo era quando se reunia a patota dos instrumentos e  cantadores sob a batuta do Mestre Celestino.
 O time estava completo com Tião no violão, Zeca Venta Grande no contrabaixo, Paulinho Suvaco na sanfona e mais a turma da percussão, dentre esses últimos o Durvalino no reco-reco. Era uma animação de não se dar conta.
Narinha, sempre muito semostradeira e rebolativa, dava uma palhinha quando era para cantar alguma coisa do “Só pra contrariar”, sua banda preferida. Sabia de memória todas as letras dos CDs que colecionava desse grupo. Tinha fotos de Alexandre Pires em tudo que era canto da casa, mesmo sob protestos de Durvalino  que sempre rezingava com aquela admiração.
A pagodeira no bar do Alcides começava rigorosamente às três da tarde e ia até quando Deus quisesse. Deus queria até no máximo uma hora da matina, quando recolhiam as mesas, cadeiras, copos e colocavam aquele mundaréu de garrafas vazias de cervejas nos engradados. Só nessa hora, nunca antes, era que Durvalino colocava Narinha na garupa da sua cinquentinha e tomavam rumo de casa, que ficava ali mesmo na comunidade.
Durvalino era frentista e pegava no batente durante o dia de segunda a sábado. Na segunda ia até mais tarde para livrar a cara mais cedo no sábado. Narinha era do lar.
Mais aí surgiu a notícia que havia uma doença  matando gente  que não acabava mais. Velho pegou é caixão na certa. Foi então que o governo mandou todo mundo para casa. Por todo mundo entenda-se também Alcides que teve de fechar a bodega. Bem, Durvalino não, porque trabalhava em posto de combustível e serviços essenciais não foram interrompidos. Gente da Saúde também ficou no batente.
Na primeira segunda-feira de quarentena, hora do almoço, Narinha passou mal. Meio dia a ambulância com sirene à toda, atravessando aqueles becos esburacados chegou à casa de Narinha. O enfermeiro a colocou no carrinho da maca e o chover ficou no volante disparando a sirene.
Os vizinhos da comunidade se assustaram. Seria o corona? Não deve ter sido. Três da tarde Narinha estava de volta. Deu algumas explicações pelo celular, pois por via das dúvidas ninguém quis chegar perto. Só uma forte indisposição estomacal, justificou.
Terça-feira, no mesmo horário, aí foram as pedras nos rins, mas a ambulância chegou toda prestativa. Narinha foi devidamente socorrida e segundo disse, tomou buscopan na veia e ficou novinha em folha.
Na quarta não deu outra hora, do almoço, Narinha quase morre de pressão alta: deu 23 por 14. Quem disse que o sistema de saúde no Brasil não funciona? O socorro chegou prontamente e novamente a ambulância levou Narinha para alguma emergência.
O mesmo na quinta: enxaqueca. Na sexta ninguém soube do mal que acometeu Narinha porque a ambulância veio buscar, mas não trouxe Narinha de volta.
Uma tragédia. Vou contar. Tem gente que não pode ver alguém feliz e já vai estragar a bem aventurança dos outros. Alguém descobriu e denunciou. A ambulância não tinha ido para clínica alguma, nem para hospital, nem para uma UPA em qualquer um  desses dias quando “socorria” Narinha. O destino era um motelzinho melequetrefe.  A polícia chegou e levou todo mundo em cana. O pior vocês não sabem, vou contar quem era esse “todo mundo”. O motorista era o Celestino e o enfermeiro, o Paulinho Suvaco. Os dois estão afastados  de suas funções e devem ser demitidos a bem do serviço público. Durvalino, por uns dias quis se matar, mas passou a vontade. Está morando no mesmo lugar e tirou os retratos de Alexandre Pires da parede. Narinha? Ninguém mais soube dela. Na comunidade o assunto ainda está na pauta  e quando passa uma ambulância por lá ninguém pensa no coronavirus, as fofoqueiras apenas ironizam: tranquem os maridos que Narinha tá chegando! Ninguém sabe se dizem isso por maldade ou o que é mais provável, por inveja.






terça-feira, 7 de abril de 2020

Porque Mendonça não casou


Culpa minha? Pelo menos é o que ele anda dizendo por aí.  Pois vejam só, eu apenas queria alertar o amigo em questão dessas dificuldades naturais do matrimônio e agora vejo meu nome rolando à boca pequena. Jamais teria eu a intenção de impedir que um amigo da qualidade do Mendonça levasse sua escolhida ao altar. Nunca!
Vou aqui relatar o fato para que o dileto leitor e a querida leitora possam me absolver dessa culpa que o estimado Mendonça tenta me imputar. Vou contar.
Encontrei Mendonça coisa de uns três meses atrás no shopping center. Vinha eu numa direção e ele na contrária até que nos esbarramos. Depois da surpresa e dos “A quanto tempo!”, “É mesmo!”, etc;  resolvemos comemorar essa agradável coincidência.
_ Que tal um chope? – propôs meu camarada.
- Vamos lá. – discordei apenas da quantidade – Um só? Hoje é sábado, Mendonça.
Sentamos e lá veio aquela torre cilíndrica transparente com um liquido amarelinho e precioso quase transbordando. Mendonça firme, esbanjando saúde nos seus trinta anos  e eu catando meus cavacos nos quase setenta. Enchemos nossas tulipas e brindamos o encontro.
_ Como está você, professor? Fazia tempo que não tinha notícias suas – era assim que Mendonça me tratava: de professor. Nunca cheguei a ser professor dele, apenas nos esbarramos pelas veredas da vida e nos tornamos amigos.
_Estou bem Mendonça. Escapando, como dizem. Vejo que você está mais jovial, Parece-me até um pouco eufórico.
_ Verdade, professor. Vim buscar minhas alianças. Vou ficar noivo na próxima semana e já vou marcar a data do casamento para o mais breve possível – e mostrou uma caixinha em veludo azul, abriu e lá estavam aqueles dois aros dourados para justificar todo aquele entusiasmo.
E lá veio ele com conversa me pedindo para falar de casamento. Mas cá entre nós, isso é coisa que se peça tomando chope? Mas já que ele pediu...
_É o seguinte, Mendonça: casamento é algo que facilita a noite, mas complica o dia.
- Como assim? – quis saber ele.
-Preciso desenhar, Mendonça? – ele pensou, sorriu, e disse que eu não precisava desenhar. Então continuei. – No começo é muito bom. A paixão está acesa e é um tal de meu amor pra cá, meu bem pra lá, gentilezas em cada gesto, em cada atitude. Um ano depois meu amigo...
_ Como assim?
_ A briga começa porque cada um aperta o tubo de pasta de dente de um jeito e ela naturalmente diz que o dela é que o certo. E toalha molhada na cama? Errar a pontaria na hora de fazer xixi, você vai ver só a bronca. Desarrumar a gaveta na hora de procurar um par de meias ou uma cueca é para meia hora de reclamação. Nem apareça suado depois de bater uma pelada com os amigos e lá vem ela com o “nem chegue perto de mim”. E acrescenta: “ponha esse tênis fedido lá na lavanderia, aproveita e coloque essa meia catinguenta na máquina de lavar”.
_ Está exagerando!
_Estou? Meu amigo, dois casamentos e descobri que mulheres são todas iguais no quesito de aporrinhar o marido. Você sai de bermuda, chinelo de dedo ela reclama: “vão dizer que não cuido de você”. Se sai bem vestido, lá vem ela: “vai encontrar com quem?” E vou dizer mais, se for ciumenta... Nem na ditadura havia tanta censura. Vai vasculhar seu celular, cheirar sua camisa, etc, etc.
_ Mas tem os filhos
_ Uma graça enquanto estão na maternidade. Depois... Eles começam a vida chorando. E como choram. Vai ver só que delícia um choro das duas às seis da manhã. Depois vão crescendo e dão outro tipo de trabalho. Comprar tênis, pagar colégio bom e ele irá querer celular do último tipo. Vai ter que trabalhar muito Mendonça.  E o que é pior, os instintos da mulher mudam depois que ela se torna mãe. Antes da gravidez, o instinto era o de dar continuidade à espécie, aqueles desejos que devem estar seduzindo você. Depois, é o de proteger a cria. Aí ela  esquece por um bom tempo que você existe, só pensa no pirralho. Vai ficar literalmente na mão.
_ Elas estão chegando, minha sogra está junto. Veja lá o que vai dizer, hein – antes que elas chegassem cochichei nos ouvidos dele:
_ Está vendo a sua sogra? Sua mulher vai ficar daquele jeito.
Nesses dias fiquei sabendo que ele desfez o compromisso. Por que será?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O compadre John Kennedy e a comadre Jaqueline


Pedro Cabacinha, filho de Pedro Cabaça, teve padrinhos tão importantes como nenhum outro brasileiro o teve. Nada mais e nada menos do que aquele casal que habitou a Casa Branca em Washington, o trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos e sua digníssima primeira dama. Padrinhos de batismo, é bom que saibam. Mas isso é toda uma história. Comecemos, então.
             Pedro Cabaça era proprietário, por direito de herança, de uma sitioca nos arredores de Cabaceiras no Cariri paraibano. Daí talvez a alcunha. Nos seus áridos e poucos hectares de chão pedregoso criava seus bodes, cultivava sua macaxeira, semeava milho e feijão de corda no dia de São José. Água pouca, só de cacimba em tempos de bom inverno ou quando o caminhão do governo passava por lá. Vida dura de sertanejo, futuro de pouca luz como a chama frágil de seu candeeiro. À noitinha ligava o radinho de pilha que lhe trazia novidades de terras distantes. Ouvia a “Voz do Brasil”, a novela das oito e depois para as redes todos da casa que o batente era pesado no dia seguinte.
         Na lida, ele, a mulher e as meninas. Meninas? Sim, Pedro Cabaça teve um rosário de maricotas, sete filhas, até que na oitava prenhês de Dona Socorro veio um machinho de três quilos e trezentos gramas com a saúde de um bezerrinho bem nutrido. Nem sei se é de minha competência descrever a alegria do nosso “caba” que prometeu matar até mais de um cabrito, se fosse preciso, para o batizado do caçula que iria ter o nome do pai na pia e nos papéis. É de onde surge o Pedrinho para os de casa e o Cabacinha para os de fora.
          Mas batizado de menino que fecha a fila só de mariazinhas merece padrinho de respeito. O padre? O prefeito? O deputado Fulano de Tal? Que nada, Pedro queria para abençoar o rebento, o presidente. O Sr João Goulart? Não, Jango era coisa pouca. O padrinho tinha de ser o presidente dos Estados Unidos. Só isso.
         Tomado de muita determinação, João Cabaça foi a Campina Grande, na agência dos Correios, ele que era homem de algumas letras, endereçou à Casa Branca, Washington DC, o seguinte telegrama:Convido o Sr Presidente dos EUA John Kennedy PT Sua patroa Dona Jaqueline PT. Batizarem meu filho Pedro PT. Sítio Esperança PT Cabaceiras PT Paraíba PT. Data a combinar.
         Os funcionários que tiveram acesso à postagem, caíram na gargalhada, mas por dever de ofício enviaram a mensagem. Para quem duvida da eficiência dos correios daqui e dos de lá, não é que a mensagem chegou às mãos do destinatário? Este receoso que fosse uma armadilha de Fidel, convocou a CIA, esta o Pentágono até que depois de severa investigação com ajuda da polícia daqui, o bonitão serelepe lá da Casa Branca tomou ciência de que o convite era de um brasileiro lá das brenhas do sertão paraibano, que só podia estar delirando pela ousadia. Mas já que estávamos na época da tal “Aliança para o Progresso”, achou que não devia desconsiderar o convite. Convocou seu embaixador em Brasília, este por sua vez foi atrás do Cônsul-Geral, este outro já chamou o Vice-cônsul, que por sua vez requisitou a presença do Agente Consular, que chamou sua secretária e foram descendo na hierarquia até que chegaram ao Senhor Bernardino, um dos motoristas da embaixada norte americana, um mulato bem aprumado de quase dois metros de altura. Ele e sua consorte Dona Catarina, foram convocados para representar o presidente da mais poderosa nação do planeta no batizado de Pedro Cabacinha
          Um gentil funcionário da representação diplomática norte americana esteve em Cabaceiras, no Sítio Esperança e comunicou a Pedro Cabaça que o presidente estava ocupado com muitas questões para evitar uma Terceira Guerra Mundial (Pedro nem sabia que houvera outras), mas que aceitara tão honroso convite e em não podendo vir, enviaria um representante. Foi marcada a data: 26 de outubro, um sábado. Não era bem o que Pedro queria, mas...Corria o ano de 1963.
         Na hora e data combinadas, a Matriz Nossa Senhora da Conceição estava apinhada de gente quando uma limousine preta com duas bandeirolas americanas no capô, despejou Seu Bernardino e Dona Catarina, aliás muito elegantes, na porta da Igreja para a cerimônia. Pedro matou os cabritos e deu festa com sanfona, doce de mamão verde e muita cachaça, conforme prometera.
        Aconteceu que no dia 22 do mês seguinte, Kennedy seria assassinado. O radinho de pilha trouxe a notícia. Pedro Cabaça emudeceu. Passou dias sem se alimentar direito. Até que Dona Socorro resolveu chamar o padre para uns aconselhamentos. O pároco falou das fatalidades, que o céu espera por homens bons, etc, etc, etc...Até que Pedro Cabaça se justificou:
       _ Sei disso Seu Padre. Compadre Kennedy já se foi. Que Deus o tenha. Estou mesmo é muito preocupado com a comadre Jaqueline – e deixou cair duas lágrimas. Poucas, mas sinceras.