quarta-feira, 1 de abril de 2020

Neymar e Dona Cotinha




Hoje vou ocupar essas linhas com duas criaturas. Uma, todo mundo conhece, ele mesmo, Neymar, o craque do PSG e da Seleção, a outra, Dona Cotinha que nem sei se mais de dez pessoas possam saber de quem se trata. Mas nesses dias aqui em casa, o meninão famoso e a senhora desconhecida, acabaram se encontrando num cantinho bem discreto das minhas ponderações.
Primeiro o mocetão que nasceu em Mogi da Cruzes, interior de São Paulo, no comecinho de noventa e dois. Pequenino e muito serelepe, com apenas sete anos chamava atenção pelos dribles desconcertantes que aplicava nos adversários, isso já na cidade de Santos onde a família fixou residência.
Lá virou celebridade. Inicialmente na Portuguesa Santista e depois exatamente no Santos Futebol Clube,  que sempre se destacou em revelar jovens talentos para o opulento mundo do futebol. Ali, o nosso “petit prince” ficou pouco tempo. Até que o tilintar das moedas o fez partir para Europa numa conturbada negociação envolvendo cifras milionárias.
Durante esse tempo que vai lá da Vila Belmiro, até hoje nos gramados parisienses, mostrou de que lado da tênue linha que separa o craque talentoso do gênio o nosso garotão se posiciona. Está do lado de cá, dos que produzem jogadas com o toque do gênio. Inegável isso.
Mas, as idiossincrasias muitas vezes superam o talento dessa criatura. Sabem daquela história de quem nunca comeu melado? Parece-me ser o caso. Ficou faltando aquela sintonia fina que os bem nascidos herdam de berço. Não falo dos bem nascidos de fortunas, mas dos bem nascidos de formação e caráter. De certa feita um técnico de futebol, Renê Simões, declarou depois de uma série de malcriações do intempestivo menino-craque: “estamos criando um monstro!” Triste premonição. Vira e mexe lá está ele, “le terrible garçon”, nas primeiras páginas dos noticiários. Não pelo seu inegável talento, mas por sua inconteste falta de educação.
Não bastasse isso, quando nossa Seleção precisou dele, deu xabu. Ficou devendo. Virou chacota no mundo inteiro e ganhou o apodo de Cai-cai.
Parece-me definitivamente que a “Pátria de Chuteiras” não pode contar com ele. Mas ele está aí, podre de rico, com mansões, iates, salários mensais maiores do que prêmios de loteria, etc, etc, etc...Mas quando o Brasil precisa dele, cadê o cara?
Já Dona Cotinha, mal consegue viver com a merreca de salário que recebe como auxiliar de enfermagem. Viúva com três herdeiros para cuidar e tendo dar escola, alimentar, vestir. Para isso trabalha três expedientes. Dois num hospital e um numa clínica particular. Dá um duro danado. Nunca soube o que é férias. Mas Dona Cotinha é muito jeitosa no trato dos pacientes. Acolhe com ternura aqueles que precisam de seus préstimos. A faina extenuante não rouba seu afeto. Sabe aliviar o sofrimento na mesma medida que devolve  esperança àqueles que a enfermidade insiste em roubar a vida.
Quase ninguém nesse mundão de Deus sabe quem é Dona Cotinha. Alguns pacientes se referem a ela como “aquela senhorinha”, “aquela enfermeira”. Mas sempre, é claro, com muita gratidão e delicadeza. Mas ficam por aí. Lembrarão dela depois? Quem sabe?
Gosto muito de Dona Cotinha. Está quase na idade de se aposentar. Segundo ela, vai receber o benefício, mas vai continuar na luta. Assim, quem sabe, sua renda melhore um pouco.
Agora, meu caro, minha cara, ao lerem estes rabiscos tenho certeza que podem me dizer por onde anda Dona Cotinha.
É isso. Dona Cotinha está na lida. E nesses tempos de pandemia não pode arredar o pé. Parece até uma astronauta, a bichinha, com aquela indumentária para evitar contaminação. Mas firme, a danada, arriscando a própria vida. Nem se importa que a idade já a coloque num risco maior, há gente precisando dela e ela não vai faltar nessa hora de precisão. Enfim, começo a crer que esse mundo é um tanto injusto. Nada contra se ganhar bem, só não concordo com o ganhar mal dessa minha amiga.
Meu abraço daqui de longe Dona Cotinha. Sei das suas dificuldades, como sei quão nos é necessária  e quão pouco é remunerada por isso  e isso me entristece. Só que tem uma coisa: todo mundo sabe onde está Dona Cotinha quando o Brasil precisa dela.

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