Hoje
vou ocupar essas linhas com duas criaturas. Uma, todo mundo conhece, ele mesmo,
Neymar, o craque do PSG e da Seleção, a outra, Dona Cotinha que nem sei se mais
de dez pessoas possam saber de quem se trata. Mas nesses dias aqui em casa, o
meninão famoso e a senhora desconhecida, acabaram se encontrando num cantinho
bem discreto das minhas ponderações.
Primeiro
o mocetão que nasceu em Mogi da Cruzes, interior de São Paulo, no comecinho de
noventa e dois. Pequenino e muito serelepe, com apenas sete anos chamava
atenção pelos dribles desconcertantes que aplicava nos adversários, isso já na
cidade de Santos onde a família fixou residência.
Lá
virou celebridade. Inicialmente na Portuguesa Santista e depois exatamente no
Santos Futebol Clube, que sempre se
destacou em revelar jovens talentos para o opulento mundo do futebol. Ali, o
nosso “petit prince” ficou pouco tempo. Até que o tilintar das moedas o fez
partir para Europa numa conturbada negociação envolvendo cifras milionárias.
Durante
esse tempo que vai lá da Vila Belmiro, até hoje nos gramados parisienses,
mostrou de que lado da tênue linha que separa o craque talentoso do gênio o
nosso garotão se posiciona. Está do lado de cá, dos que produzem jogadas com o
toque do gênio. Inegável isso.
Mas,
as idiossincrasias muitas vezes superam o talento dessa criatura. Sabem daquela
história de quem nunca comeu melado? Parece-me ser o caso. Ficou faltando
aquela sintonia fina que os bem nascidos herdam de berço. Não falo dos bem
nascidos de fortunas, mas dos bem nascidos de formação e caráter. De certa
feita um técnico de futebol, Renê Simões, declarou depois de uma série de
malcriações do intempestivo menino-craque: “estamos criando um monstro!” Triste
premonição. Vira e mexe lá está ele, “le terrible garçon”, nas primeiras
páginas dos noticiários. Não pelo seu inegável talento, mas por sua inconteste
falta de educação.
Não bastasse isso, quando
nossa Seleção precisou dele, deu xabu. Ficou devendo. Virou chacota no mundo
inteiro e ganhou o apodo de Cai-cai.
Parece-me
definitivamente que a “Pátria de Chuteiras” não pode contar com ele. Mas ele
está aí, podre de rico, com mansões, iates, salários mensais maiores do que
prêmios de loteria, etc, etc, etc...Mas quando o Brasil precisa dele, cadê o
cara?
Já
Dona Cotinha, mal consegue viver com a merreca de salário que recebe como
auxiliar de enfermagem. Viúva com três herdeiros para cuidar e tendo dar
escola, alimentar, vestir. Para isso trabalha três expedientes. Dois num
hospital e um numa clínica particular. Dá um duro danado. Nunca soube o que é
férias. Mas Dona Cotinha é muito jeitosa no trato dos pacientes. Acolhe com
ternura aqueles que precisam de seus préstimos. A faina extenuante não rouba
seu afeto. Sabe aliviar o sofrimento na mesma medida que devolve esperança àqueles que a enfermidade insiste em
roubar a vida.
Quase
ninguém nesse mundão de Deus sabe quem é Dona Cotinha. Alguns pacientes se
referem a ela como “aquela senhorinha”, “aquela enfermeira”. Mas sempre, é claro,
com muita gratidão e delicadeza. Mas ficam por aí. Lembrarão dela depois? Quem
sabe?
Gosto
muito de Dona Cotinha. Está quase na idade de se aposentar. Segundo ela, vai
receber o benefício, mas vai continuar na luta. Assim, quem sabe, sua renda
melhore um pouco.
Agora,
meu caro, minha cara, ao lerem estes rabiscos tenho certeza que podem me dizer
por onde anda Dona Cotinha.
É
isso. Dona Cotinha está na lida. E nesses tempos de pandemia não pode arredar o
pé. Parece até uma astronauta, a bichinha, com aquela indumentária para evitar
contaminação. Mas firme, a danada, arriscando a própria vida. Nem se importa
que a idade já a coloque num risco maior, há gente precisando dela e ela não
vai faltar nessa hora de precisão. Enfim, começo a crer que esse mundo é um
tanto injusto. Nada contra se ganhar bem, só não concordo com o ganhar mal
dessa minha amiga.
Meu abraço daqui de longe
Dona Cotinha. Sei das suas dificuldades, como sei quão nos é necessária e quão pouco é remunerada por isso e isso me entristece. Só que tem uma coisa:
todo mundo sabe onde está Dona Cotinha quando o Brasil precisa dela.
Que legal! Gosto muito de ler suas crônicas!
ResponderExcluirFico contente Lindemary.
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